A discussão gerada pela lista de produtos norte-americanos que devem sofrer sobretaxa de importação como forma de retaliação pelos subsídios concedidos aos produtores de algodão dos Estados Unidos – que prejudicaram os agricultores brasileiros – é um bom momento para tratar de um problema interno. Como estamos discutindo a imagem internacional das mercadorias que vendemos, creio que vale a pena ver como o esforço de alguns para gerar produtos de qualidade pode ser posto por água abaixo por aqueles que querem lucro fácil obtido com a transformação de pessoas em instrumentos descartáveis.
Há incidência de trabalho escravo não apenas em lavouras de algodão, mas também em outros pontos da cadeia – como bem mostra as repetidas libertações de imigrantes latino-americanos, principalmente bolivianos, em oficinas de costura em São Paulo. Hoje, os casos de empregadores flagrados com escravos nas fazendas de algodão representam cerca de 3,7% da “lista suja” do Ministério do Trabalho e Emprego, que relaciona pessoas físicas e jurídicas que se utilizaram desse tipo de mão-de-obra. Como a atividade pode ser intensiva em força de trabalho, o número de libertados chega a 7% do total da lista. Nada comparado ao gado bovino, primeiro lugar em fazendas fiscalizadas devido a esse crime, ou à cana-de-açúcar, que vem sendo campeã no número de libertados nos últimos anos. Mas ainda assim preocupante.
Há cinco, seis anos, o trabalho escravo no algodão era um problema concentrado no Mato Grosso. As ações do Ministério do Trabalho e Emprego, do Ministério Público do Trabalho, do governo estadual, dos movimentos sociais, sociedade civil local, associações de empresários do setor e da indústria aparentemente estão conseguindo diminuir o problema por lá. Analisando a “lista suja” e as libertações de escravos nos últimos anos, verifica-se que o foco do problema no algodão migrou para o Oeste da Bahia, conhecido como uma das pontas-de-lança da expansão agrícola nacional.
Essa região gerou casos de escravos no algodão que ganharam repercussão nacional. Um exemplo foi o da fazenda Campo Aberto, palco da libertação de 82 pessoas em 2007, em que um dos sócios, Milton da Silva, é pai do falecido piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna. Outro, em 2003, quando 259 trabalhadores foram resgatados da fazenda Tabuleiro que tinha Constantino de Oliveira, um dos donos da Gol Linhas Aéreas, como um dos sócios.
Antes que alguém grite pela falta de nacionalismo deste post, saibam que a responsabilidade pelo trabalho escravo encontrado no Brasil, nos Estados Unidos (ah, sim, eles têm e muito), no Paquistão, na China, enfim, ao redor do globo, não é apenas do produtor rural. Há redes de produção global e teias de comercialização transnacionais que ganham muito forçando os preços para baixo, em uma ode à competitividade e à transformação de pessoas em coisas em busca do aumento de rentabilidade.
Civilizar minimamente esses processos é tão fundamental quanto permitir retaliações comerciais. Sem minimizar o comportamento criminoso dos senhores de terra escravagistas, mas os atores globais são sempre esquecidos na hora de passar a fatura pela exploração mundial do trabalho. Pena que a Organização Internacional do Trabalho não tenha, nem em sonho, o mesmo “poder de polícia” que a Organização Mundial do Comércio.
Neste 8 de março, resgato uma idéia que já havia discutido aqui, mas que não mudou muitos nos últimos tempos: o jornalismo ajuda a manter, de diversas formas, a desigualdade de gênero:
Vocês já repararam que muitos veículos de comunicação quando citam pela segunda vez o nome de um entrevistado, repetem o sobrenome no caso de homens e o primeiro nome no caso de mulheres? “De acordo com Fonseca” em contraste a “segundo Paula”. Já perguntei a um editor de um veículo que faz isso o porquê e ele disse que era apenas um padrão adotado para não confundir o leitor, uma vez que é mais comum chamar o homem pelo sobrenome do que a mulher. Mais respeito dedicado a um, mais informalidade a outra?
Parece besteira esse tipo de coisa, mas minha profissão está recheada de sexismo de linguagem. Isso sem falar dos temas abordados, como saúde da mulher, que, contraditoriamente ,são tratados muitas vezes sob o ponto de vista masculino. Quando se adota um manual de redação, algumas dessas arestas são aparadas, mas ele não resolve tudo.
Há muitas bizarrices cravadas em nossa formação e até os que têm consciência disso cometem barbaridades de vez em quando – eu, envergonhadamente, sou um exemplo disso. O que me lembra uma antiga militante pelos direitos das mulheres que dizia que todo o homem é inimigo até que tenha sido educado para o contrário. Nesse sentido, a formação educacional e social dos jornalistas continua pré-histórica, retrato do restante de nossa sociedade.
Apesar delas serem a imensa maioria nas redações, são minoria nos cargos de alto comando. Há poucas que fazem parte das equipes que escrevem os editoriais. Na média, também recebem salários menores que os dos homens. As editoras, muitas vezes, têm que trabalhar mais e mostrar serviço por serem testadas o todo o tempo. Isso sem contar o estresse de não poder engravidar e ter filhos para não perder o que já foi conquistado devido ao afastamento.
Já participei de encontros reunindo representantes de veículos de comunicação progressistas. Muitas vezes são poucas as mulheres presentes, o que mostra que o problema não afeta apenas um grupo ou uma posição ideológica.
Neste 08 de março, gostaria de poder dizer que tudo isso vai mudar e rápido. Mas tenho certeza que não. Jornalistas acham que são iluminados pela razão. O jeito que tratamos nossas companheiras de trabalho – conscientemente ou não – mostra que não, que vamos na mesma lenta toada da sociedade como um todo, engatinhando para sair da idade das trevas do preconceito.
Não quero abrir uma discussão sobre liberdade de expressão, pois ela deveria ser o mais ampla possível sempre – e para todo mundo e não apenas meia dúzia de pessoas. Muito menos defender uma ética consequencialista. Mas lembrar que há limites do que se pode fazer ou falar, estabelecidos através da análise do que podemos causar de dano real à vida de outras pessoas. Vamos a dois casos recentes que ganharam destaque na imprensa.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária desistiu de pedir a restrição de horários dos anúncios de produtos alimentícios com altos teores de açúcar, gorduras e sódio voltados para crianças. Também largou mão de limitar a publicidade de bebidas de baixo teor nutritivo, como refrigerantes. Há quatro anos, a Anvisa havia proposto que os comerciais desses produtos ficassem de fora da faixa de programação entre 6h e 21h, em que, teoricamente, os pimpolhos estão acordados. A idéia agora é focar na política de alertar para o consumo. Isso, é claro, foi ao encontro das reivindicações da indústria e do próprio mercado publicitário. E na direção contrária de entidades que defendem que esses anúncios atingem um público (crianças) que não tem capacidade de escolher entre o que é bom e o que não é para a sua saúde.
No dia 1º de março, um dos pontos abordados durante o 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, realizado pelo Instituto Millenium, que possui proprietários de empresas de comunicação entre os diretores, as restrições de publicidade de bebidas alcoólicas, cigarros e produtos para crianças estiveram na pauta. Na discussão, foi questionado se essas tentativas de proibição teriam o objetivo de enfraquecer a imprensa através do bloqueio de seu financiamento. Novamente a palavra mágica “auto-regulação” foi lançada no ar, ou seja, que o Estado fique longe, deixando a sociedade (leia-se mercado) resolver.
Em 2008, durante um congresso de propaganda, representantes de veículos de comunicação reclamaram dos mais de 300 projetos que, segundo eles, restringiriam a liberdade de expressão comercial no Brasil. Na época, dei uma olhada em alguns deles e havia aqueles muito bizarros, que feriam a Constituição, mas também outros muito sensatos, que ajudam a proteger o cidadão de preconceito, racismo, machismo, intolerância – isso sem contar os produtos que colocam em risco a saúde das pessoas.
Alguns representantes de canais de TV e de agências de publicidade reclamaram, nesse congresso, que as empresas têm o direito de se expressar ao vender seu produto da mesma forma que os jornalistas o têm ao noticiar algo. Pergunto-me, então, se isso significa que as agências de publicidade vão começar a dar os “dois lados” ao vender um produto (não que reportagens sempre dêem os dois lados, mas pelo menos isso está lá nos manuais…)
Ter informação é fundamental para poder ter liberdade de escolha. E comprar é um ato político, pois ao adquirir um produto você dá seu voto para a forma através da qual uma mercadoria foi fabricada e mesmo o que ela representa. Então, que se abram as caixas pretas! Resgatei, abaixo, algumas sugestões de anúncios que postei na época, com base nessa nova visão da publicidade:
“Esse carro sobe qualquer montanha com seu novo sistema de tração nas quatro rodas. Mas, cuidado! Ele tem uma tampa de bagageiro que pode decepar seu dedo, pois o projeto desse utilitário foi feito às pressas para que a empresa ganhasse mais dinheiro.”
“Este refrigerante contém bastante sódio, o não é muito bom para o coração. E engorda. E favorece as cáries. Mas é uma delícia! E tem bolhas.”
“Este novo modelo de celular também é MP3, máquina fotográfica, agenda, acessa a internet, lava, passa e cozinha. Mas a cada 1000 produzidos, um deles tem uma bateria que vai estourar provocando graves queimaduras.”
“Essa bolacha recheada é um fenômeno. Gosto incrível, textura incrível e o recheio, hummmmm, super fofinho. Tão fofinho quanto você vai ficar se comer um pacote inteirinho toda a vez que lembrar deste anúncio. Ah, e é enriquecida com vitaminas B5 e B12.”
“O patê é o must. Nem dá para perceber que quatro gansos foram enjaulados e obrigados a serem alimentados por sonda noite e dia até que seu fígado, inchado, estivesse do tamanho de uma bola de tênis e ideal para ser utilizado.”
“Fume este cigarro. E não se preocupe: o sistema público de saúde do país tem inaugurado ótimos hospitais para tratamento de câncer.”
“A calça é para quem tem estilo. Apesar do seu custo de produção ser baixo, por ter sido feita por imigrantes escravizados em São Paulo, jogamos o preço para cima. Dessa forma, você pode ficar tranqüilo que não vai ver um pobre pé-rapado usando mesma a calça. Nunca.”
“O combustível é ótimo, faz com que o motor do seu carro dure 30% a mais. Só tem um efeito colateral: ele possui tanto enxofre na fórmula que contribui mais do que qualquer coisa com a poluição das grandes cidades. Mas quem se importa com isso?”
Se for assim, vamos lutar para a liberdade de expressão total e sem restrições nas propagandas! Certamente, com os anunciantes e veículos de comunicação falando a verdade sobre o que oferecem a nós, teremos um país mais consciente na hora de comprar e, portanto, um desenvolvimento mais sustentável.
A Organização Internacional do Trabalho, órgão das Nações Unidas, divulgou um documento que, por coincidência, pode ser útil à discussão gerada pelo post anterior.
Afinal de contas, se a participação das mulheres no mercado de trabalho brasileiro aumentou nos últimos anos, bem como suas responsabilidades, as desigualdades de gênero continuaram preocupantes. E a situação mais gritante, vejam só, está entre as mulheres negras. O documento, trazido a público por conta do Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, pode ser baixado clicando aqui.
Destacamos algumas partes do documento aqui na Repórter Brasil. A começar pelo óbvio: “as mulheres – principalmente as mulheres negras – possuem rendimentos mais baixos que os dos homens e, ainda que em média tenham níveis de escolaridade mais elevados, seguem enfrentando o problema da segmentação ocupacional, que limita seu leque de possibilidades de emprego”:
Entre 1998 e 2008, aumentou a proporção de mulheres que são “chefes de família”, ou seja, que são as principais responsáveis pelo sustento do lar. Essa porcentagem subiu de 25,9% para 34,9%, que equivale a mais de um terço das famílias brasileiras. Aumentou também a parcela de núcleos formados por mães que cuidam sozinhas dos filhos: de 4,4% para 5,9%.
A participação das mulheres, em 2008, chegou a 43,7% (42,5 milhões de pessoas) no universo de pessoas com mais de 16 anos que estavam no mercado de trabalho. No mesmo ano, homens negros e mulheres negras formavam 50% (48,5 milhões) desse contingente.
O exame da taxa de desemprego evidencia com clareza a marca da desigualdade. Para mulheres negras, a taxa em 2008 alcançou 10,8%, em comparação a 8,3% para as mulheres brancas, 5,7% para os homens negros e 4,5% para os homens brancos, que foram menos afetados.
Para advogados brancos, o salário médio de admissão nos últimos seis meses foi de cerca de R$ 3 mil. Neste período, informa o Salariômetro, houve 150 contratações com o mesmo perfil, na localidade informada.
No caso das advogadas negras, o salário médio de admissão no último semestre foi de R$ 1,48 mil. Durante este período, houve registro de apenas duas contratações com este perfil na capital paulista.
Trabalho doméstico – “As mulheres e os negros são mais presentes nas ocupações informais e precárias e as mulheres negras são a grande maioria no emprego doméstico, uma ocupação que possui importantes déficits no que se refere ao respeito aos direitos trabalhistas”, completa o documento da OIT.
As trabalhadoras domésticas representavam 15,8% do total da ocupação feminina em 2008. São 6,2 milhões de mulheres que se dedicam a essa profissão, e a maioria delas são negras. Mais de 20% das mulheres negras ocupadas estão precisamente no trabalho doméstico, que é caracterizado pela precariedade. Somente 26,8% das domésticas tinham carteira de trabalho assinada em 2008. Entre as trabalhadoras domésticas negras, o nível é ainda maior: 76% não possuem carteira assinada.
A pesquisa identificou que homens ocupados gastam 9,2 horas semanais com afazeres domésticos (reprodução social), enquanto que as mulheres ocupadas dedicam 20,9 horas semanais para o mesmo fim. Com isso, apesar da jornada semanal média das mulheres no mercado ser inferior a dos homens (34,8 contra 42,7 horas, em termos apenas da produção econômica), a jornada média semanal das mulheres alcança 57,1 horas e ultrapassa em quase cinco horas a dos homens (52,3 horas).
Os dados novos não mostram uma situação diferente daquela que já conhecemos – apesar de muitos fazerem questão de não enxergar. De novidade, apenas nossa renovada ignorância e incapacidade de garantir igualdade de condições e de direitos.
Ontem, durante audiência no Supremo Tribunal Federal para discutir o sistema de cotas em universidades públicas, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) usou da palavra para destilar todo o seu profundo conhecimento sobre a história do Brasil. Quem ouviu seu discurso saiu com a impressão de que aprendeu várias coisas novas. Que os africanos eram os principais responsáveis pelo tráfico transatlântico de escravos. Que escravas negras não foram violentadas pelos patrões brancos, afinal de contas “isso se deu de forma muito mais consensual” e “levou o Brasil a ter hoje essa magnífica configuração social” de hoje. Que no dia seguinte à sua libertação, os escravos “eram cidadão como outro qualquer, com todos os direitos políticos e o mesmo grau de elegibilidade” – mesmo sem nenhuma política de inserção aplicada. Com tudo isso, o nobre senador deu a entender que os negros foram os reais culpados pela escravidão no Brasil. As frases (da qual retirei trechos que estão entre aspas) foram registradas pelos jornalistas Laura Capriglione e Lucas Ferraz, da Folha de S. Paulo.
A posição do senador é compreensível, se considerarmos que o discurso feito não foi um ataque à reserva de vagas para negros e afrodescendentes e sim uma defesa da elite política e econômica que controlou a escravidão no país e que, com algumas mudanças e adaptações, desembocou em setores do seu próprio partido.
Depois me perguntam por que a proposta que confisca terras de quem usou trabalho escravo está engavetada no Congresso Nacional…
Um comentário sobre o direito dos libertados exposto pelo senador: Em meados do século 19, com o fim do tráfico transatlântico de escravos, a propriedade legal sob seres humanos estava com os dias contados. Em questão de anos, centenas de milhares de pessoas estariam livres para ocupar terras virgens – que o país tinha de sobra – e produzir para si próprios em um sistema possivelmente de campesinato. Quem trabalharia para as fazendas? Como garantir mão-de-obra após a abolição?
Vislumbrando que, mantida a estrutura fundiária do país, o final da escravidão poderia representar um colapso dos grandes produtores rurais, o governo brasileiro criou meios para garantir que poucos mantivessem acesso aos meios de produção. A Lei de Terras foi aprovada poucas semanas após a extinção do tráfico de escravos, em 1850, e criou mecanismos para a regularização fundiária. As terras devolutas passaram para as mãos do Estado, que passaria a vendê-las e não doá-las como era feito até então.
O custo da terra começou a existir, mas não era significativo para os então fazendeiros, que dispunham de recursos para a ampliação de seus domínios. Porém, era o suficiente para deixar ex-escravos e pobres de fora do processo legal. Ou seja, mantinha a força de trabalho à disposição do serviço de quem tinha dinheiro e poder.
Com o trabalho cativo, a terra poderia estar à disposição para livre ocupação. Porém, com o trabalho livre, o acesso à terra precisava ser restringido. A existência de terras livres garante produtores independentes e dificulta a centralização do capital e da produção baseada na exploração do trabalho. Com o fim do tráfico e o livre mercado de trabalho despontando no horizonte, o governo brasileiro foi obrigado a tomar medidas para impedir o acesso à terra, mantendo a mão-de-obra reprimida e alijada de seus meios de produção.
O fim da escravidão não representou a melhoria na qualidade de vida de muitos trabalhadores, uma vez que o desenvolvimento de um número considerável de empreendimentos continuou a se alimentar de formas de exploração semelhantes ao período da escravidão como forma de possibilitar uma margem de lucro maior ao empreendimento ou mesmo lhe dar competitividade para a concorrência no mercado. Desde 1995, mais de 36 mil escravos contemporâneos foram libertados pelo governo de fazendas de gado, soja, cana…
Para além dos efeitos da Lei Áurea, que completa 122 anos em maio, trabalhadores rurais ainda vivem sob a ameaça do cativeiro. Mudaram-se os rótulos, ficaram as garrafas.
Mas, principalmente, o Brasil não foi capaz de garantir que os libertos fossem tratados com o respeito que seres humanos e cidadãos mereciam, no campo ou na cidade. Herança maldita presente na sociedade. E alimentada por discursos como o de Demóstenes Torres.
PS: Posto o discurso do senador (a partir do minuto 33) a pedido de leitores. O que me lembra que um político é capaz de falar qualquer coisa de uma forma bonita…
A propaganda do Primetown/Primeacqua, em Campinas (SP), realça um empreendimento imobiliário diferenciado que abriga um condomínio de apartamentos conjugado com um complexo comercial, rodeado por áreas verdes, repleto de estruturas de lazer e ecologicamente correto. A obra de mais de 500 mil m² é uma aposta das Organizações Sol Panamby, grupo empresarial do ex-governador de São Paulo Orestes Quércia (PMDB). Contudo, o que não deve ter sido apresentado aos potenciais compradores dos apartamentos foi a situação daqueles que erguiam os prédios. Fiscalização da Gerência Regional do Trabalho e Emprego em Campinas (SP) flagrou cerca 20 trabalhadores da construção civil com salários atrasados e alojados em instalações precárias. A denúncia foi publicada aqui na Repórter Brasil pelos repórteres Rodrigo Rocha e Maurício Hashizume.
Contratados pela construtora Enplan, eles chegavam a trabalhar mais de 10 horas por dia para levantar os primeiros apartamentos do condomínio. Do total de 90 pessoas que trabalhavam na obra, 20 estavam em situação irregular, conta o auditor fiscal Mario Roberto Matallo, que esteve presente na fiscalização. Desde quando foram contratados em novembro do ano passado, os trabalhadores ganhavam apenas pequenos adiantamentos. As condições de higiene eram precárias, com pessoas dormindo no chão e alojamentos que alagavam durante a chuva. Ou seja, um empreendimento que conhece as regras e normas da construção civil não garante o mínimo de dignidade aos seus empregados. Considerando que o país vive um boom imobiliário, preocupo-me sobre que tipo de base estão sendo erguidas as fundações desse crescimento. Sangue, suor e argamassa?
O ato da compra é um ato político poderoso. Através dele damos um voto de confiança para a forma pela qual determinada mercadoria é produzida. Um exercício democrático que não é exercido apenas a cada quatro anos, mas no nosso dia-a-dia. E que pode ditar a qualidade de vida de trabalhadores em Campinas. Ou mesmo o destino da maior floresta tropical do mundo e de sua gente.
Tempos atrás, nós da Repórter Brasil junto com a Papel Social Comunicação lançamos um estudo mostrando como o consumo da cidade de São Paulo causava sérios impactos na Amazônia. Um exemplo de cadeia produtiva analisada foi a da Sincol. Com matriz em Santa Catarina e filiais em São Paulo, Paraná, Miami e Porto Rico, a Sincol estava entre as maiores empresas do setor madeireiro no país. Produz portas, janelas, batentes e casas pré-fabricadas, tanto para o mercado interno quanto para a exportação. A empresa controlava a madeireira Sulmap Sul Amazônia Madeiras e Agropecuária, sediada em Várzea Grande (MT), autuada por crimes ambientais e acusada de envolvimento em grilagem de terras.
A Sulmap, também fabricante de esquadrias e peças de madeira para instalações industriais e comerciais, foi acusada pelo Ministério Público Federal de envolvimento em grilagem de terras, uso de planos de manejo ilícitos e invasão de área indígena em Colniza (MT), onde fica a Terra Indígena Kawahiva do Rio Pardo.
Nossa pesquisa mostrou, na época, que a Sulmap vendeu seus produtos florestais para ao menos duas grandes construtoras de São Paulo entre 2007 e 2008 – a Prese Empreendimentos Imobiliários e a Rovic Bahia Empreendimentos. Elas eram responsáveis pela construção de mais de 40 edifícios, muitos deles de alto padrão, localizados em bairros como Morumbi, Brooklin e Moema. Na época, a Sincol preferiu não se manifestar e a Rovic Bahia afirmou não ter relações com a Sulmap e comprar madeira única e exclusivamente da Sincol. A Prese Empreendimentos Imobiliários disse desconhecer qualquer problema da Sulmap com o Ibama.
Imagine uma casa de classe média brasileira, com seus utensílios e objetos, exposta em um circo no Japão para mostrar como vive aquela gente diferente do outro lado do mundo. Causaria comoção por aqui, não?
O Zoológico de São Paulo construiu uma oca indígena para abrigar uma exposição educativa sobre cultura, história e tradições dessas populações tradicionais. Segundo o seu site, “a proposta é estimular o respeito e a valorização do índio como um dos pilares culturais e étnicos do Brasil”. O projeto pode ter nascido da melhor das intenções, tocado por pessoas que acreditam que só conhecendo o outro é que conseguiremos difundir conceitos como tolerância e respeito. Contudo, a meu ver, o resultado é questionável, indo no sentido oposto e mostrando que o inferno continua povoado de boas intenções.
Afinal de contas, ao que estamos comparando as populações indígenas com esse tipo de exposição? Plantar a casa de alguém dentro de um local de exibição e estudo de fauna apenas reforça preconceitos, principalmente na cabeça de crianças e adolescentes, principal público do parque. Qual a diferença simbólica entre isso e um circo, em que se anuncia a apresentação de leões, macacos, elefantes e índios? Esse tipo de contextualização do tema reafirma determinados estereótipos que deveriam estar sendo combatidos com uma boa discussão sobre direitos sociais e individuais das comunidades tradicionais. Que, apesar de seu modo de vida diferente, não são a mesma coisa que bichinhos e plantinhas. Muitos menos um mundo bizarro a ser exposto em vitrine.
Onde seria travado esse debate? Na sala de aula, na família, na rua, no campo, no noticiário da TV, em uma praça pública. Não existe um local sagrado para isso, pelo contrário, ele deve estar em todo o lugar, assim como o ar que a gente respira, transversal como os direitos humanos.
Em exibição, deveriam estar os políticos e a elite rural que defendem a diminuição dos direitos dessas populações, sendo contrários à demarcação de territórios indígenas. Seria um serviço ímpar de utilidade pública: ver de perto para tentar entender essa espécie que tanto sofrimento causa ao seu semelhante. Seria, contudo, uma grande falta de respeito com os animais que vivem por lá.
Esta reaberta a Temporada de Abraço ao Eleitor, quando os nossos representantes políticos abandonam a roupa formal, arregaçam mangas de camisa ou substituem o salto pela sandalinha e vão às ruas trocar suor com o povo. As fotos na mídia já mostram o hercúleo esforço de certos pré-candidatos para enlaçar donas de casa, pedreiros, agricultores rurais e ambulantes, em um refrega que vale vaga em outubro. Façam um exercício e percebam nessas fotos e imagens como o abraço é incompleto, duro, constrangido com aquele penduricalho popular no pescoço.
Lembro, há muito tempo, de um político que dizia que não ficava no meio da refrega porque não gostava do cheiro do povo. Não creio que toda a classe política evoluiu desde então, apenas aparou arestas, tomando um banho mais demorado no final do dia. Afinal de contas, quem quer ficar com odor de gente que trabalha no corpo? Os que melhor incorporarem a política do “lavou, tá novo” se darão melhor. Como sempre.
Para muitos, inclusive, será a única dose de realidade que terão nos próximos quatro ou oito anos.
Organizações da sociedade civil dos Estados Unidos devem começar, em breve, ações para convencer as montadoras de carros de lá a fazer com que suas empresas no Brasil adotem políticas específicas de combate ao trabalho escravo em suas cadeias produtivas. A ação pedirá que a indústria automobilística norte-americana que atua em território brasileiro crie procedimentos para eliminar todos os fornecedores diretos e indiretos que tenham usado trabalho escravo, principalmente na cadeia do carvão vegetal – insumo para fabricação de ferro-gusa/aço.
Não são poucos os casos detectados de contaminação da cadeia produtiva do setor com matéria-prima de fazendas e carvoarias presentes na “lista suja” do trabalho escravo do governo federal, cadastro que relaciona os que comprovadamente se valeram dessa prática. Até agora, nenhuma montadora aderiu ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que reúne mais de 20% do PIB brasileiro contra esse crime.
Eric Holder, secretário de Justiça dos Estados Unidos, conclamou ao Brasil que aumente os esforços no combate à pirataria de softwares, vídeos, músicas, produtos eletrônicos. Ontem, em evento no Rio de Janeiro, disse que o “roubo de propriedade intelectual” é uma ameaça à segurança nacional de seu país.
De tanto ouvir e ver propagandas em rádios, TVs e cinemas que fazem o consumidor sentir-se um pedaço de lixo, financiador do tráfico de drogas, responsável pelo desemprego e pela fome no mundo, por não se atentar à origem dos CDs e DVDs que compra, creio que se faz necessária uma pergunta: empresas de software, gravadoras e a indústria do entretenimento em geral, muitas delas com sede nos Estados Unidos, aplicam o mesmo terror em suas relações comerciais?
Inexiste, por parte de muitas delas, uma política para evitar a compra de equipamentos eletrônicos (utilizados na criação de programas, gravação de músicas, filmagens de películas) que contêm crimes contra a humanidade e o meio ambiente em seu processo de fabricação. As únicas restrições que impõem são: que o produto tenha preço baixo e a qualidade técnica desejada. Enquanto isso, a indústria de aparelhos eletrônicos consome proporções cada vez maiores de minérios preciosos e raros encravados pelo mundo. Muitos desses metais são extraídos em minas de países pobres nas quais trabalhadores, crianças e adultos, enfrentam condições aterradoras. Ou comunidades são removidas para dar mais espaço para a mineração. Fora a contaminação da água e a poluição do solo.
Alguns vão dizer que é ilegal baixar músicas e copiar DVDs, mas comprar de quem escraviza e desmata para a produção de matéria-prima não. A resposta sobre o porquê de o mundo ser assim reside no fato de que, historicamente, as leis criadas para proteger a propriedade e o lucro são mais severas e efetivas do que as que foram implantadas para defender a vida e a dignidade. Por isso, não me surpreende que, durante a visita ao Rio, a redução de danos sobre impactos causados pelo consumo norte-americano ao redor do planeta não tenha sido uma das pautas.
Se o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e parte da poderosa indústria da informação e do entretenimento não podem comprovar para o consumidor comum de que o seu processo de produção é social e ambientalmente responsável, como é que eles vão exigir responsabilidade de nós?
A provocação não é uma apologia à pirataria, mas sim um saudável chamado à reciprocidade e à responsabilidade.
Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Foi professor de jornalismo na USP e trabalhou em diversos veículos de comunicação, cobrindo os problemas sociais brasileiros. É coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.