Cana – quem vale mais: dólares ou trabalhadores?
Ao anunciar, ontem, os dados de geração de emprego com carteira assinada no país, o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi (PDT) afirmou que seriam implantadas medidas para combater o trabalho escravo no setor sucroalcooleiro. Ele enfatizou que o objetivo é se antecipar às críticas internacionais devido ao aumento da participação brasileira no mercado de etanol e açúcar.
“A questão do etanol é prioritária para o país. Venho recentemente de uma reunião na OIT [Organização Internacional do Trabalho], e a gente percebe com clareza um movimento para prejudicar o Brasil no cenário internacional, já que somos os pioneiros nessa tecnologia”, afirmou.
Deve-se reconhecer que Lupi tem colocado em seus discursos o combate à escravidão contemporânea como uma das principais pautas de sua administração, afirmando que esforços estão sendo feitos na implantação de medidas preventivas, além de garantir apoio às operações de fiscalização.
Contudo, é preocupante que um ministro do Trabalho analise publicamente a questão do etanol sob a ótica dos problemas gerados ao empresariado e não pelas conseqüências ao trabalhador.
Nos últimos três anos, 19 trabalhadores rurais morreram no corte da cana apenas no (“desenvolvido”) interior paulista. Centenas de pessoas têm sido encontradas em situação degradante de trabalho em canaviais de Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo. A cana não é a principal usuária de escravos – título ostentado pela pecuária bovina. Mas há incidência do crime nesse setor, tanto que a maior libertação realizada até hoje aconteceu em uma fazenda de cana – a Destilaria Gameleira, em Confresa (MT), em junho de 2005, quando 1003 pessoas ganharam a liberdade.
É claro que as coisas não são simples. Se houver embargo comercial, os trabalhadores rurais também serão prejudicados. Mas o Ministério do Trabalho há anos têm atuado para regularizar a situação nessas fazendas, ou seja, fazendo a parte dele. É hora dos empregadores, que têm enchido os bolsos com a cana, e seus ministérios fazerem também a lição de casa.
Lupi deveria externar sua preocupação com a situação dos trabalhadores rurais envolvidos na colheita da cana, que se matam de trabalhar, cortando até 17 toneladas por dia e não com a queda de ganhos causados por possíveis barreiras comerciais. Esse discurso caberia aos ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento e Comércio Exterior ou ainda do das Relações Exteriores. O MTE é para defender o trabalhador e não o capital.
Isso me lembra um caso que aconteceu há um ano, quando fui a Alemanha para dar palestras sobre a situação do trabalho escravo no Brasil e como a Europa poderia contribuir com a sua erradicação. Quando voltei, recebi críticas de dirigentes de uma grande central sindical brasileira, que hoje faz parte do governo (OK, não ajuda muito, pois as duas maiores se aninharam com Lula), de estar “manchando” a imagem das empresas brasileiras no exterior.
Fiquei surpreso. Não por culparem o mensageiro – como jornalista já estou acostumado. Mas em nenhum momento eles se mostraram preocupados em como ajudar a resolver o problema. Ficaram indignados com o possível impacto no comércio – como se o fato de termos trabalho escravo fosse alguma novidade para o mundo.
Se esse é o novo sindicalismo, mais de olho mais na balança comercial do que na situação dos trabalhadores, teremos que redefinir rapidamente o significado da palavra peleguismo.

Caro Leonardo,
Acredito que não seja possível pensar a questão do etanol e o impacto da implementação deste para os trabalhadores e as trabalhadoras sem pensar um novo modelo para o campo no Brasil. Explico: quem irá produzir o etanol em larga escala – sei que assentamentos do MPA, Movimento dos Pequenos Agricultores, estão começando também essa produção – são os mesmos latifundiários que hoje desrespeitam os direitos humanos. Trabalho escravo e reforma agrária estão diretamente relacionados e, até agora, o governo deixou muito a desejar. Apesar do ministro colocar o trabalho escravo como uma de suas bandeiras – como você disse no texto – isso não é suficiente pois é necessário pensar em uma outra distribuição de terras e de renda no Brasil para que os trabalhadores libertos tenham algum futuro no campo.
Abraço,
Maíra.
Sakamoto, go to hell!
Surpreso em ficaria se o governo decidisse falar no exterior em nome dos trabalhadores.
Acabar com o trabalho escravo é simples – Bastas não comprar os produtos oriundos desse tipo de atividade. Essas pessoas só entendem a linguagem do lucro e se perderem compradores acatam as leis. Acho engraçado os paises da Europa criticarem as praticas ruins mas comprarem mogno da amazonia e produtos baratos da China etc.
No caso da cana é só ameaçar as usinas (que não são mais os patrões dos cortadores, já terceirizaram tudo) de não poderem vender seus produtos. O pior que vai acontecer, e vai acontecer, é todo o trabalho de corte ser mecanizado e todos os cortadores de cana ficarem sem trabalho.
Acho que o problema não está só no ministro, mais também na sociedade que não se indigna. Não sei se está notícia saiu na mídia, mais sinto que colegas meu que souberam não ficaram indignados.