Diários do Paquistão: Islamabad – parte 1

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Islamabad – Uma cidade planejada, de avenidas largas e prédios públicos monumentais, foi contruída no interior do país, substituindo a antiga capital que ficava à beira-mar. O objetivo era promover a integração do país, facilitando o acesso ao poder central. Brasília? Não. Islamabad.

A construção da nova capital teve início em 1961 e, cinco anos depois, começou a funcionar o primeiro edifício governamental na cidade. Assim como Brasília, ela possui apenas algumas centenas de milhares de habitantes, mas é cercada de cidades mais pobres e populosas no entorno, que lhe fornecem mão-de-obra.

Em ambas, as contradições sociais estão escondidas dos olhos dos visitantes: enquanto não muito longe do Palácio do Planalto, temos um bairro pobre nascido de uma ocupação irregular, em Islamabad há uma favela com esgoto a céu aberto escondida em um descampado nos fundos do parlamento nacional. Islamabad, assim como Brasília, também é uma ilha de irrealidade social, com uma elite mergulhada em sua própria corrupção e no incesto do público e do privado. Mas isso é história para depois.

(As crianças, brincando na frente de uma favela, não fogem das fotos como os adultos.)

Islamabad é mais cosmopolita do que as demais cidades paquistanesas, dizem seu moradores. Por isso a força de tradições religiosas, apesar de existirem, é mais amena que no interior do país. Mas a cidade também é, por assim dizer, muito chata, com a falta de alternativas culturais e de lazer, com exceção de alguns parques. Mas sair para dar uma corridinha não contribui muito para a saúde, pois a poluição é um problema. Sou paulistano e já me acostumei com o ar melequento da minha cidade. Mas o mal-estar aqui é agravado pela umidade e o calor dessa época do ano, que tornam o caldo bem indigesto.

Como comentei em outro post, no último dia 10 de julho, o governo paquistanês invadiu a Mesquita Vermelha para debelar um princípio de insurreição de grupos islâmicos radicais, deixando um rastro de mais de 100 mortos. Um leitor me mandou um e-mail dizendo que isso o fez lembrar do massacre da Penitenciária do Carandiru, em São Paulo, e a ação estúpida do governo paulista, que fez 111 vítimas em 1992. É, caro leitor, a estupidez não obedece credos ou fronteiras, é universal.

Por aqui o assunto virou tabu. Não se fala no tema e desconfia-se de quem toca no assunto.

O administrador de empresas Ali diz que a razão disso é que o governo possui muitos agentes secretos e informantes que podem causar problemas caso você faça um comentário mais enfático a respeito do massacre ou dos grupos radicais que estão em conflito com o governo (ele mesmo ficou preocupado sobre o motivo da minha pergunta.)

Nosso taxista, Assef, é um sujeito extremamente simpático. Apesar de não entender muito o que a gente fala, sempre sorri. Mas quando a Mesquita Vermelha foi trazida para dentro da conversa, fechou a cara, ficou claramente contrariado e não disse mais nada.

Passamos em frente ao local do massacre hoje, mas não conseguimos entrar, nem tirar fotos. O prédio foi pintado e limpo e na praça em frente, há um grande efetivo de militares, incluindo um veículo semelhante ao “caveirão” carioca, que recepciona os visitantes na porta de entrada.

A mesquita é bem pequena e apagada, a bem da verdade. Fica perto do Enclave Diplomático – uma verdadeira cidade cercada e protegida que concentra escritórios, residências, escolas e demais facilidades para os funcionários das embaixadas – e não muito distante da sede do governo federal, do tribunal islâmico e da suprema corte. Em Brasília, por exemplo, as embaixadas ficam em um setor da cidade, mas sua porta da frente é acessível por qualquer um. Ou seja, dá para realizar manifestações em frente delas – a embaixada norte-americana que o diga…

A Mesquita Vermelha desaparece se comparada com a gigantesca Mesquita Rei Faissal, a maior do Paquistão, localizada também em Islamabad. O mármore do chão do complexo escaldado pelo sol (visitantes devem deixar os calçados na entrada) comporta de 75 a 300 mil pessoas (de acordo com a fonte de informação). Lá, conheci pessoas mais simpáticas do que no restante da cidade – achei Islamabad uma cidade fria tanto no trato com as pessoas de fora, quanto nos moradores entre si. Pode ser que a simpatia seja causada pela impressão de que eu era muçulmano. Devo confessar que comprei um livro do alcorão. Se eu tinha cara de terrorista antes, quero ver o comportamento da imigração inglesa agora.

Tem um vídeo da última oração do dia, reproduzida por poderosos altos-falantes. A qualidade da imagem está péssima, devo reconhecer, mas foi feita do celular e repassada para o You Tube – prova de que por aqui as novas tecnologias da comunicação funcionam.

Os quatro minaretes da mesquita, com 88 metros de altura cada, são alvo de uma teoria esquisita de alguns moradores da cidade que dizem que a CIA acha que as quatro torres são mísseis balísticos escondidos. Dá para ter uma idéia do tipo de relacionamento saudável que os Estados Unidos desenvolveram com este país.

Mas que parecem mísseis, isso parecem.

Os Estados Unidos provocam múltiplas reações e aparentemente não há um consenso sobre o aliado. Em uma das inúmeras lojas de tapetes da cidade, um vendedor diz que o modelo com bandeirinhas norte-americanas tem saída. “Tem gente que gosta.”

Enquanto isso, o presidente Pervez Musharraf afirma que o governo decidiu entrar na “guerra ao terror” devido a interesses do próprio Paquistão, retrucando implicitamente quem diz que o país obedece aos EUA (ele só não falou que a fatura entregue aos EUA não foi baixa…)

Ao mesmo tempo, garantiu que vai concorrer a um novo mandato. Mas a Constituição o obriga a renunciar ao seu generalato se quiser tentar se reeleger, o que ele não quer fazer de jeito nenhum. Ou seja, as coisa vão esquentar, principalmente na já estremecida relação com a suprema corte, que teve o seu presidente destituído recentemente pelo próprio Musharraf – e depois restituído pelos colegas juízes.

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  1. flavio abdalla lage disse:

    Caro Sakamoto,
    adorei sua reportagem sobre Islamabad, acho interessantíssimo que reportagens como a sua venham mostrar as pessoas que não possuem oportunidade de conhecer essas culturas, possam obter tal conhecimento.
    Porém como morador da cidade de Brasília fiquei um pouco entristecido com a colocação feita acerca da população de Brasília.”uma elite mergulhada em sua própria corrupção” .
    Como brasiliense sinto-me na obrigação de fazer este “protesto” . Porque nos somos corruptos? Não seriam os políticos vindos de todo os país que fariam parte dessa rede de corrupção? A elite brasiliense é formada em grande parte e até em maior porcentagem por empresários, muitos destes saem de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo em busca de mais segurança para suas famílias, são pessoas que dão duro para ter o que tem.
    Até acredito que muitos podem ter enriquecido com trabalho ilícito, mas generalizar e rotular essa elite como corrupta não sei se seria o ideal.
    Acredito que sua intenção não tenha sido falar mal de nossa população, mas pelo fato de o país passar por uma fase muito triste de corrupção, acabamos levando a culpa por coisas que não temos “nada” a ver (com exceção do voto) e isso nos entristece bastante.
    Recentemente no Programa do Jô, uma modelo de renome internacional e brasileira citou nossa cidade como sendo terra de como sendo “terra de bandido” ou algo parecido, tenho medo que certas colocações como esta venham a destruir uma idealização projetada por Oscar Niemeyer, Lucio Costa e pensadores importantes do páis, além de começarmos a ser alvos de críticas nas ruas das cidades em que passarmos enquanto estivermos viajando.
    Peço desculpa pelo português já que como estudante das exatas nunca levei jeito para tal.
    Muito Grato
    Flávio Abdalla Lage
    Estudante de engenharia da Universidade de Brasília, leitor IG e não participante de elite alguma.

  2. relato perfeito disse:

    caro sakamoto,
    me senti em Islamabad.
    parabéns.
    abração,
    André Naddeo

  3. Xisto disse:

    Fazem muitos comentarios preconceituosos sobre brasilia, outro dia vi um individuo defendendo que os EUA bombardeasse brasilia com 50 bombas atomicas de megatons, para vitrificar o piso de brasilia com todo mundo lá. QUANTA BOBAGEM.

  4. Luiz disse:

    Gostei muitos das informações, não conhecia nada sobre a possível relação entre Islamabad e Brasília.

    Para mim obviamente existe uma correlação entre ambas as capitais.

  5. Jonas Campos disse:

    Nesse canto aó do mundo, tudo o que envolve os Estados Unidos não é paranóia e sim verdade…

  6. rodolfo josé guimarã disse:

    parabéns, interessante visão dessas paragens desconhecidas por mim suas observações acho desvendam um pouco do mistério que é o Paquistão para nós os ocidentais que não tivemos oportunidade de conhecê-lo. aguardo nosvas reportagens

  7. Elora disse:

    Bon dia Sakamoto, gostei do teu Blog. Tenho un Diploma em Historia, infelizmente aqui não posso le utilizar; bem oque quero dizer é que vc vive a historia no presente e tem que continuar a fazer oque esta fazendo, divulgar essa miseria toda que o totalitarismo esta fazendo com os paises do terceiro mundo. Bravo! Desculpes os erros estou destreinada… Boa continuação.

  8. valmir perez disse:

    Gostaria de saber o que é aquela bola preta que aparece nos ceus no vídeo da mesquisa do rei Faissal. Achei estrenha essa imagem.

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