Diários do Paquistão: o comércio de órgãos humanos
Islamabad - Uns tempos atrás, circulava por São Paulo uma lenda urbana em que uma pessoa atraente oferecia uma bebida em uma balada e depois sugeria uma noite em um motel. Chegando no local, o desavisado capotava por efeito do sonífero na bebida e acordava em uma banheira, cheia de gelo, com um recado ao lado de um telefone: “Não se levante, seu rim foi retirado. Ligue para a emergência”.
Pois saibam que o roubo de órgãos não é conto da carocinha por aqui.
Neste exato momento está sendo discutida no Paquistão a probição do comércio de órgãos humanos, atividade que movimenta mais de R$ 30 milhões anualmente por aqui.
O principal órgão comercializado são os rins, e o centro dessa atividade bisonha está localizado nas cidades de Lahore e Rawalpindi, sendo que a maioria dos vendedores são da zona rural da província de Punjab. Uma estimativa divulgada pelo jornal Dawn, um dos mais influentes, apontam que cerca de 70% deles são trabalhadores forçados – aquele pessoal explorado e miserável que venho retratando nos posts.
Desesperadas para quitar a dívida que possuem com o senhor de terras ou o dono de uma fábrica de tijolos, essas pessoas vendem um rim por algo entre R$ 2 mil e R$ 4 mil. Porém, o esforço, que vai debilitar a sua vida para sempre, tem se mostrado inútil. Uma pesquisa também divulgada pelos jornais daqui mostra que 95% dos vendedores continuam pobres e devendo ao patrão, portanto, escravos de sua vontade. Nessa hora, quando percebem a burrada que fizeram, sentem-se culpados, caem na depressão e vão definhando aos poucos.
Cerca de mil transplantes de rins foram realizados em entrangeiros que viajaram ao país com essa finalidade. Pessoas de mais de 20 países do Oriente Médio, América do Norte, Europa e Sul da Ásia. Daí pode-se tirar uma idéia de quem usa o Paquistão como estoque de peças humanas de reposição. O irônico é que, em muitos casos, mesmo com poderosas drogas imunosupressoras, a incompatibilidade leva à rejeição do órgão. Perdem os dois lados, ganha a máfia montada para esse fim.
Quem fica com a maior parte do dinheiro são os intermediários, que negociam as vendas, e as equipes médicas daqui que aceitam realizar esse tipo de operação. E, é claro, o senhor de terras. Há casos relatados por organizações não-governamentais de servos que foram enganados pelo patrão e tiveram seu rim roubado. O sujeito é levado para o hospital, faz exames, é anestesiado e sai de lá sem um rim. Aí o patrão diz que abateu uma parte da dívida com ele, mas não toda. Quando se recuperar da cirurgia, é obrigado a continuar trabalhando.
Apesar de parcelas importantes da população, como a Sociedade de Transplantes, estarem pressionando pela proibição total desse comércio, até agora o governo tem se mostrado conivente com a situação. O primeiro-ministro Shaukat Aziz recentemente jogou a solução para frente, indo contra seu próprio ministro da Saúde.
Um dos motivos para a lenga-lenga é o – acreditem – o intenso lobby sobre o governo dessa máfia que lucra com o comércio de órgãos. Não só aqui, mas em todos os países, a pressão das ricas indústrias da morte é forte. No Brasil, por exemplo, ajudou na vitória do “não” sobre a proibição das armas de fogo.
Desculpem. Este não foi um post leve, ao contrário dos outros até agora. Também nem tinha como ser diferente.
PS: Depois de tantos dias de viagem, estou voltando, mais queimado de sol e um pouco mais magro. Amanhã trago o epílogo desta jornada.


Associei a crônica ao filme “dirty pretty things” lançado em 2002 sobre este submundo (porém deslocado à Londres atual).
Na Ásia os primeiros a explorarem o povo são seus próprios concidadãos, não que isso não ocorra também no Brasil, mas o valor dado à vida na Ásia é diferente e o conformismo é extremamente arraigado, é pior ou o mesmo que existe nas entranhas deste país.
Será o conceito de direitos humanos uma invenção ocidental? (também às vezes pouco aplicada por estes lados do extremo ocidente). Há alguma intenção de conscientização da população, verdadeira conscientização e não “a la-ocidental”? Parabéns pelas observações.
Putaquepariu! Coitada dessa gente! O que mais fata acontecer agora?
Mesmo com toda a credibilidade do seu post, eu fico tão estarrecido que pareço preferir não acreditar.
Coisa estranha, coisa estranha…
Quanto mais se vive mais se vê a injustiça e miséria humanas…Francamente, será que existe justiça divina ?
C
aro Sakamoto….pois é…a que ponto chega a humanidade!!!!!!….
Ben vindo de volta….inda que venha sentir saudades de suas apreciações existenciais e políticas
de dentro do Povão.
Sabe, o Povão é dá o real significado de humanidade a espécie humana…
As Elites são todas iguais em todo o planeta.
Em tempo…ta demorando pra que o
Forte Abraço
A tempo……ta demorando para que todos os países penalizem com leis
severas o infame e maldito comércio de órgãos humanos!!!!!
Não sei o que é pior, daqui a pouco os EUA faz uma invasão……
vc diz da ñ proibição de armas de fogo mas o direito de auto defesa ficou restrido aos mais abastados corrige-se estou errado
Muito boa essa mensagem, que sirva para todos nos porque acredito que existam monstros fazendo isso em todos os lugares do mundo !!!
“No Brasil, por exemplo, ajudou na vitória do “não” sobre a proibição das armas de fogo.”
ahahahaahah
Que ridículo! São realmente as armas que matam, não as pessoas! Assim é fácil!
Então por que os países mais seguros do mundo são os que possuem um população civil armada? Milagre?
Daniel, os Estados Unidos são seguros, né?
Não conhecia este blog. Gostei muito. E acho seu trabalho jornalístico super importante. Parabéns, Leonardo!
Depósito de orgãos… Putz!
Não, cara, não pode ser leve…
A sua função é mostrar o quanto somos alienados…
E tudo isto acontece nas américas, europa e o rsto do mundo!
E olhe que sou um transplantado.
Ah! E mata mais um homem com uma arma…
E não estou falado de 38, 22…
Uzi, Ak47, AR15, 762… Elas não deixam testemunhas!
Assistam no Youtube, “Quem poupa o lobo sacrifica a ovelha.”
Sakamoto, continue assim…
Pobre povo…
Grande Sa
cadê o epílogo????……ainda da pra colocar umas fotos mais panorâmicas dos lugares q visitou….ptra gente poder ver como é q moram…..as construções….etcetc
forte abraço
Há 20 anos que a violência nos EUA cai, enquanto que na maioria dos países ela aumenta. Além disso, todos os países que foi implantado o desarmamento(sempre da população ordeira nunca dos bandidos) a criminalidade aumentou e continua aumentando.
O próprio EUA é um grande exemplo de como violência acontece em lugares onde as pessoas estão desarmadas. Existe lei federal(todos os estados seguem) que proíbe o porte de arma em escolas, universidades e hospitais, por isso que os doidos atacam esses lugares. São doidos mas são muito mais inteligentes que vocês, sabem onde estão as vítimas, cidadãos desarmados.