Já postei este texto no blog antes. A pedido de leitores, resgato-o novamente para dar um pequena contribuição à reflexão nesta virada do ano. Não só ele continua atual, como acho que estamos caminhando mesmo nessa direção.
Não sei se todos se deram conta, mas estamos vivendo tempos interessantes – para usar a expressão do professor Hobsbawn – no que diz respeito ao “ser” de esquerda no Brasil. Um período de mudanças em que um dos efeitos é a falta de entendimento entre grupos que, teoricamente, defendem o mesmo objetivo. A questão ambiental é um dos palcos principais dessa batalha, em que a razão tem sido morta e enterrada – principalmente pelo grupo que está no poder.
Tivemos três grandes ciclos da esquerda no país durante o século 20. Grosso modo, o primeiro deles, anarquista, foi fomentado pelos imigrantes europeus que vieram trabalhar na então nascente indústria paulista e difundiram seus ideais. O segundo, com os movimentos comunistas e socialistas, da intentona à resistência à ditadura militar dos anos de chumbo. O terceiro veio com o processo de redemocratização do país e a liberdade de organização civil e tem um forte tom partidário.
Ou seja, a esquerda durante o século 20 variou de acordo com a relação que firmava com o Estado. Do anarquismo, que não acreditava que ele fosse fundamental para o desenvolvimento da sociedade, passando pelo comunismo, que defendeu a necessidade de destruir o Estado para depois reconstruí-lo sob a direção do proletariado, até o “petismo” em que a esquerda acreditou que seria possível tomar o Estado dentro das regras do jogo da classe dominante, ou seja através da disputa político-eleitoral.
Veio o século 21 e uma das poucas certezas que tenho é que o paradigma do sistema político representantivo está em grave crise por não ter conseguido dar respostas satisfatórias à sociedade. Bem pelo contrário, apesar de ser uma importante arena de discussão, ele não foi capaz de alterar o status quo. Apenas lançou migalhas através de pequenas concessões, mantendo a estrutura da mesma maneira e a população sob controle. O Estado, assim como há 100 anos, continua servindo aos interesses de alguns privilegiados detentores dos meios de produção. E a maioria das disputas relevantes no seio do Estado são eminentemente intra-classe, no caso a elite.
Os atores desse terceiro ciclo da esquerda, que tem seu cerne no petismo, fracassaram em sua idéia original de mudar o Estado por dentro. Grande parte do PT (deixando claro que há notáveis exceções) adotou práticas que ele mesmo abominava. Bem, todos conhecem a história.
Onde está a força da esquerda hoje? Nos movimentos sociais e nos grupos de base. Ou seja, atores que dialogam com o Estado, mas que estão fora dele, atuando na transformação da sociedade pelo lado de fora. Creio que isso deve-se à desilusão com a política partidária tradicional, à incapacidade dessa velha esquerda em dar alternativas para os jovens e ao fortalecimento de grupos que nunca adentraram no sistema partidário por não acreditarem em sua natureza ou por serem dele alijados.
O mais importante grupo político hoje no país, concordando ou não com seu modus operandi, é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que através da luta pela reforma agrária tenta alterar o modelo de desenvolvimento econômico. Ou seja, faz política.
E não é só a luta pela terra. A incapacidade do sistema representativo de gerar respostas satisfatórias levou também ao fortalecimento da luta da sociedade civil em outras frentes, como trabalho, comunicação, direitos humanos e meio ambiente. Ressalte-se, apenas, que sociedade civil não é a mesma coisa que organizações não-governamentais, pois, a despeito das ONGs comprometidas com mudanças estruturais, muitas delas são de ordem cosmética e apenas reforçam as condições atuais.
O interessante é que esse quarto ciclo de esquerda, dos movimentos e da sociedade civil organizada ou não, tem muito a ver com o primeiro, lá no início do século 20. Ao questionar o papel do Estado e agir por conta própria, adota nuances de anarquismo. Alguns podem falar que o que chamo de nuances de anarquismo seria, na verdade, um processo de aprofundamento do Estado mínimo em que o governo se exime de suas responsabilidades entregando ao mercado a gestão da sociedade.
Há de se ter cuidado com isso e não confundir programas como “Amigos da Escola” – que, na verdade, são mais daquelas migalhas que falei acima – de um processo sério de organização popular pela transformação da realidade social, econômica, cultural, política. Mas essa separação é fácil de ser feita, basta verificar quais são os impactos da ação de determinado grupo. Se elas não se encaixam em um panorama maior, de transformação real, e limitam-se à sua pontualidade, estamos falando de migalhas.
Por exemplo, ocupações de reitorias pelos estudantes, de terras improdutivas pelos sem-terra ou de prédios abandonados por sem-teto têm um objetivo muito maior do que apenas obter concessões de curto prazo. Elas não servem apenas para tapar as goteiras das salas de aula, desapropriar uma fazenda ou destinar um prédio aos sem-teto. Os problemas enfrentados pelos movimentos envolvidos nesses atos políticos não são pontuais, mas sim decorrência de um modelo de desenvolvimento que enquanto explora o trabalho, concentra a renda e favorece classes de abastados, deprecia a coisa pública (quando ela não se encaixa em seus interesses) ou a privatiza (quando ela se encaixa). Ou seja, as ocupações são uma disputa de poder feita simultaneamente em âmbito local e global que, no horizonte histórico, poderá resultar na manutenção da pilhagem econômica, social e cultural da grande maioria da sociedade ou levar à implantação de um novo modelo – mais humano e democrático.
O problema é que toda mudança leva a um enfrentamento. No caso da questão ambiental, por exemplo, há uma disputa sendo travada entre pessoas da velha e da nova esquerda via mídia. O discurso de que o desenvolvimento é a peça-chave para a conquista da soberania (o que concordo) e que, portanto deve ser obtido a todo o custo (o que discordo) tem sido usado por pessoas que foram comunistas, tornaram-se petistas e hoje fazem coro cego ao PAC do governo federal. Mantém viva a parte ruim do pensamento do genial Celso Furtado que, na prática, significa que é necessário sacrificar peões para ganhar o jogo.
Do outro lado, os movimentos sociais e ONGs sérias que atuam nesse campo defendem que o crescimento não pode ser um rolo compressor passando por cima de pessoas e do meio ambiente. Por suas ações, que impedem um laissez-faire generalizado, são taxados de entreguistas e de fazerem o jogo do capital internacional. Nos últimos tempos, presenciamos isso nas críticas levantadas contra o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que ocupam hidrelétricas, ou nos impropérios lançados às comunidades que protestaram contra as obras de transposição de parte das águas do São Francisco.
É claro que os países do centro querem que nós arquemos com o ônus da preservação do planeta. O mercado de carbono, na prática, é isso: compra-se créditos de terceiros (que vão adotar práticas ou projetos que absorvam carbono da atmosfera) para que se possa poluir. Ao mesmo tempo que isso acontece, esses países se beneficiarão do alargamento da já grande distância de desenvolvimento entre o centro e a periferia.
Mas o atual modelo, gestado no seio do capitalismo, e em plena vigência no Brasil tem um potencial destruidor muito grande, além de ser extremamente concentrador. Ou seja, o resultado da pilhagem dos recursos naturais e do trabalho humano, mantendo o padrão adotado até aqui, continuará nas mãos de poucos, sejam eles brasileiros ou estrangeiros. Não faz sentido defender algo que também está nos afundando.
Como se resolve esse enfrentamento? Na minha opinião, não se resolve. O problema entre a velha e a nova esquerda está no contexto histórico em que seus atores foram formados. Não adianta mostrar fatos novos ou uma nova luz para a interpretação da realidade, há grupos que fecham e não abrem com o padrão de desenvolvimento forjado na ditadura – paradoxalmente a mesma ditadura que os torturou. A meu ver a solução se dará através de renovação geracional, ou seja, os mais antigos se retirando com a idade para dar lugar aos mais novos. É triste que seja assim, mas tendo em vista os últimos embates, não acredito em conciliação possível.
Tudo o que foi discorrido aqui, é claro, diz respeito à esquerda internamente. Agora, como diria o professor Garrincha, falta combinar com o inimigo. Porque a história mostra que apesar da esquerda ter capacidade de influenciar a realidade no país, ela não foi capaz de transformá-la. E a menos que algum dos novos ciclos traga respostas para romper com a estrutura atual, continuaremos vendo eles se repetirem nos fracassos. Para a alegria da direita.
Ao todo, 19 nomes entraram (entre eles o de um juiz do Maranhão) no cadastro de empregadores que utilizaram mão-de-obra escrava. Outros 19 saíram após cumprirem as exigências. A atualização foi divulgada nesta segunda (29).
A “lista suja” tem sido um dos principais instrumentos no combate a esse crime, através da pressão da opinião pública e da repressão econômica. Quem é nela inserido pelo Ministério do Trabalho e Emprego, fica sem acesso a financiamentos públicos e são submetidos a restrições comerciais por parte das empresas signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. O nome de uma pessoa física ou jurídica só é incluído na relação depois de concluído o processo administrativo referente à fiscalização dos auditores do governo federal e lá permanece por, pelo menos, dois anos. Durante esse período, o empregador deve garantir que regularizou os problemas e quitou suas pendências com o governo e os trabalhadores.
O juiz Marcelo Testa Baldochi, integrante do Poder Judiciário do Estado do Maranhão, é dono da fazenda Pôr do Sol, no município de Bom Jardim (MA). O grupo móvel do MTE fiscalizou a área isolada, que fica a cerca de 170 km do centro de Açailândia (MA), em setembro de 2007 e encontrou 25 pessoas – um deles adolescente, com apenas 15 anos, que nunca freqüentara a escola – em condições análogas à escravidão. Foi aberta uma sindicância no Tribunal de Justiça do Maranhão, mas até agora uma decisão não foi tomada.
A Energética do Cerrado Açúcar e Álcool Ltda., principal responsável pela Usina Itarumã, em Itarumã (GO), foi o agente empregador incluído na “lista suja” do trabalho escravo com o maior número de libertados: 77 pessoas, vindas do Maranhão. Em abril de 2007, fiscais do MTE identificaram o problema no novo empreendimento sucroalcooleiro, a 56 km do centro de Itarumã e aproximadamente a 360 km da capital Goiânia. A Usina Itarumã, que conta com incentivos fiscais do governo estadual, ainda está em fase de instalação e deve operar a todo vapor na produção de etanol a partir do início de 2010.
Se o caso do setor sucrolacooleiro concentrou o maior número de libertados, a maioria absoluta (11 das 19 propriedades, ou seja, 57,9%) dos infratores incluídos na atualização da “lista suja” mantém atividade pecuária, principalmente nas bordas da floresta amazônica. Em janeiro de 2005, o grupo móvel de fiscalização libertou 64 trabalhadores da fazenda Colônia, em Ulianópolis (PA), no Sudeste do estado. O dono Isaac Aguiar fazia parte de um esquema montado com o “Hotel Peoneiro do Milton” (de Milton Maciel da Costa, também denunciado pelo Ministério Público Federal), em Paragominas (PA), que intermediava o comércio de escravos com fazendeiros da região, por meio da ação dos “gatos” (aliciadores).
Dois produtores de soja também entraram para a “lista suja”. Uma dela é a fazenda Fatisul, em Dourados (MS), da Fatisul Indústria e Comércio de Óleos Vegetais Ltda., de onde foram libertadas nove pessoas. Depois do flagrante, a Fatisul assinou um TAC com o compromisso de melhorar as condições trabalhistas e de providenciar a instalação de placas de trânsito de alerta sobre os riscos do aliciamento para o tráfico de pessoas, contra o trabalho forçado e contra o trabalho infantil.
Para mais informações, sugiro a matéria completa que publicamos na Repórter Brasil.
“Não temos nada contra os habitantes de Gaza, mas estamos comprometidos em uma guerra sem piedade contra o Hamas e seus aliados”, declarou o ministro israelense da Defesa. Desde o início das recentes hostilidades, foram mais de 310 mortos do lado palestino, dos quais 60 civis, e dois do lado israelense (às 12h desta segunda). Dá 150 para 1, por enquanto, mas o saldo vai aumentar de ambos os lados e é provável que essa proporção não se mantenha. Número de mortes não deveriam ser comparadas, pois a dor não é algo mensurável. Mas isso serve para ranquear nossa ignorância e estupidez. Se fosse uma ação violenta da polícia carioca junto a favelas, mesmo as classes mais abastadas – muitas vezes lenientes com a morte dos mais pobres – já teria chamado a situação de chacina ou massacre. Nesse caso, relutamos em falar em banho de sangue.
Podemos chamar de guerra quando um dos lados é tão superior militarmente ao outro, fato que se traduz na contagem de corpos, como no caso dos ataques israelenses? O que significa “não temos nada contra os habitantes de Gaza”? Considerar normal uma taxa de, pelo menos, 20% de “danos colaterais”, ou seja, de morte de civis em confronto? Nesse sentido, para não dizer que as Nações Unidas não estão agindo, há boletins com o número de mortos. Um placar eletrônico.
As vendas neste Natal cresceram em comparação às do ano passado, mas foram em um ritmo menor do que o esperado. Em outras palavras, em um embalo mais fraco do que a expressiva toada de crescimento vivenciada em 2007 e em boa parte de 2008. De acordo com a Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), as vendas em dezembro cresceram 3,5% em comparação com o mesmo mês do ano passado.
Dois comentários: primeiro, reflexos da crise já se fazem sentir no comércio, nem tanto pela falta de dinheiro em si no bolso, mas pela cautela do consumidor em gastar. Bombardeado com tanta notícia ruim é claro que a percepção de crise no cidadão comum seja maior do que os efeitos da própria, apesar do apocalipse não estar tão perto quanto a mídia e os “especialistas” alardeiam por aqui. Segundo, mesmo com tudo isso, as pessoas foram às compras. Não vou computar isso na conta do presidente, dizendo que milhões atenderam ao seu pedido de consumir para fortalecer o mercado interno e espantar a crise, mas é fato que ele apostou e teve sucesso.
De qualquer maneira, 3,5%, em um cenário internacional tão sinistro, é uma boa notícia. Apesar disso, os “especialistas” (vai entre aspas porque minha cachorra cega e surda de 17 anos acerta mais previsões de cenários do que eles. Aliás, eu deixaria meu fundo de investimento – se tivesse um – na pata dela e não na mão de muitos deles, mas isso é uma outra história) tratam esse crescimento como uma má notícia.
Quando interessa, aparecem comparações com a situação atual em economias pelo mundo. Quando não interessa eles fecham a comparação considerando a situação interna brasileira ao longo do tempo? O ano passado e o primeiro semestre deste foram excepcionais, economicamente falando. Crescer 3,5% é bastante, tendo em vista a situação e a base de comparação.
Ouvi uma entrevista no rádio de Nabil Sahytoun, presidente da Alshop, dizendo que eles esperavam o dobro desse crescimento em vendas e explicando como foi o Natal dos lojistas. Preocupado, quer a flexibilização dos direitos trabalhistas para que o comércio possa agüentar a fase difícil que se aproxima e não demitir. Culpa encargos como o FGTS e o INSS pagos mensalmente, taxando-os como entraves. Pede que o governo reflita sobre isso e diz que vai atuar para as mudanças necessárias.
Não acho que seja fácil para micro e pequenas empresas, com baixos lucros, arcarem com todos os impostos e tributos. Mas eles fazem parte da regra do jogo, da mesma forma que o direito ao lucro em uma sociedade capitalista também é, e são importantes para garantir qualidade de vida para o empregado, seja através da criação de uma poupança própria que lhe dê perspectivas no futuro e uma garantia maior em caso de demissão, seja pela manutenção de um sistema público de seguridade social. Que se mostra cada vez mais necessário em um mundo em que os sistemas privados de previdência, antes vistos como a alternativa, vão mostrando que são frágeis. Um empregado com qualidade de vida melhor rende mais e trabalha melhor. Há um retorno em produtividade que vai além dos cálculos de economia mensal.
Quanto às grandes empresas, não preciso nem dizer que muita gente entupiu os bolsos de dinheiro nos últimos anos, nadando de braçada. E agora os mesmos vêm chorar para o governo, dizendo que não têm condições de se manter? Façam-me um favor! Entre 2006 e 2007, as vendas de Natal em shoppings cresceram mais de 10%. E essa bonança toda, que, por exemplo, refletiu-se na construção de dezenas de novos shoppings neste ano, foi para onde?
E nem estou entrando no mérito de que são direitos conquistados com base em sangue e suor ao longo de décadas de lutas trabalhistas.
Ninguém nega que tempos difíceis virão, mas a situação deve ser tratada analisando-se caso a caso, dando espaço para negociações entre patrões, empregados e sindicatos, tentando atravessar esse período da melhor forma possível. E não aproveitar as nuvens negras que se avizinham no horizonte para aprovar em toque de caixa uma série de medidas que, há anos, estava no bolso de parte do empresariado para aumentar a lucratividade. Medidas que vão apenas manter o abismo de desigualdade.
No começo de outubro, o discurso era de “precisamos cortar custos trabalhistas porque senão iremos falir” (que, em muitos casos, era uma falácia). Depois, foi o “precisamos cortar custos trabalhistas para enfrentar esse período de turbulência internacional” (mantendo o lucro obtido até aqui intocado, é claro). O que ouvi no rádio vai na mesma linha, a do “temos que cortar direitos, senão iremos lucrar, mas menos do que gostaríamos”. Não que o discurso de alguns empresários tenha se aprofundado nesse sentido. Mas nada como uma crise para dar um banho de sinceridade no significado das coisas.
Qual vai ser o próximo? É preciso cortar direitos porque…porque…porque sim, ora!
Sempre gostei do poema do dramaturgo alemão Bertold Brecht que tratava da indiferença. Andaram pela mesma linha Maiakovski e Niemöller, escrevendo sobre o não fazer nada diante da injustiça para com o outro, até que, enfim, o observador passivo se torna a vítima. Situação mais atual do que nunca, do desrespeito aos direitos dos trabalhadores à violência do “progresso” contra populações tradicionais. Hoje, não é comigo, então que se danem os outros. E quando chegar o amanhã e vierem bater à sua porta?
A versão brasileira do jornal Le Monde Diplomatique está veiculando um comercial que traz cores e formas a essa idéia, e ficou muito bom, uma porrada. Como ele não passa a toda hora, postei-o aqui.
Ou, lembrando John Donne, poeta inglês, citado em “Por Quem os Sinos Dobram”, de Ernest Hemingway, ao defender que a morte de qualquer homem me diminui, pois sou parte da humanidade: nunca procure saber por quem os sinos dobram, pois eles dobram por ti. No ano em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completou seis décadas, sem que a humanidade tenha conseguido colocá-la em prática como desejado, isso vale uma reflexão. A culpa por esse fracasso é sempre dos outros?
Recebi de um amigo, tirada das recentes manifestações de jovens e imigrantes contra a política econômica grega, que não os permite sonhar com um futuro. O levante começou após a morte de um rapaz de 15 anos por um policial, mas cresceu com a canalização da insatisfação contra o governo.
Compartilho a imagem com todos que acreditam em um mundo melhor. Neste final de ano, os protestos por lá são um alento, pois mostram que há uma geração disposta a não aceitar bovinamente o que fazem do seu país.
Mais da metade dos vôos com atrasos no país nesta terça (23) foram de responsabilidade da Gol Linhas Aéreas e da Varig, sua recente aquisição. Consumidores têm suas passagens remarcadas sem serem consultados, o tratamento ao passageiro pelas centrais de atendimento é péssimo. O Procon de São Paulo notificou a empresa, que já emitiu uma nota pública dizendo que os problemas eram pontuais e foram sanados ontem. Culpa-se uma esteira de bagagens aqui, São Pedro acolá. O ministro da Defesa chegou a dizer que faltava gente para o serviço que a companhia tentava oferecer: “Há um problema de operações na Gol. A empresa teve um problema com corte de funcionários, que agora estão fazendo falta”.
Hoje, no saguão do aeroporto de Congonhas e de Brasília, algumas das pessoas que reclamam da situação são as mesmas que aplaudiram o modelo de sucesso implantado pelos criadores da companhia. O seu presidente, Constantino Júnior, já foi ovacionado, postado em capa de revista, tido como exemplo. Diminuir custos ao essencial. Ou, como parece agora, indo aquém dele. Pois, ao que podemos perceber pelas palavras do ministro, não é apenas na barra de cereais que eles economizaram.
Vale lembrar que, nos últimos anos, a Gol também fez parte do noticiário negativo. Com exceção da queda do seu avião no Mato Grosso, a maioria dos casos envolveu Nenê Constantino, pai do presidente, um dos donos da empresa e também do grupo de viação Áurea. Alguns exemplos: flagrante de trabalho escravo em sua fazenda na Bahia; envolvimento em um escândalo com a participação do então senador Joaquim Roriz (PMDB-DF), que acabou renunciando ao cargo; indiciamento como mandante do assassinato de um líder comunitário no Distrito Federal por disputa de um terreno de uma garagem.
O objetivo deste post não é infernizar mais ainda Nenê, que já tem problemas demais. E nem dizer qual empresa é melhor do que outra, porque as concorrentes já demonstraram que também precisam melhorar no quesito respeito ao consumidor e segurança dos passageiros. Ou seja, não estou travando aqui uma discussão comercial. Mas gostaria de lembrar como a mídia e a sociedade incensam heróis e modelos a serem seguidos sem atentar-se para a gravidade disso. Gerar lucro, apesar de pedra fundamental do capital, não deveria ser a principal virtude a ser perseguida, muito menos copiada cegamente.
Eu já havia criticado neste espaço a posição do presidente da Vale ao defender cortes “temporários” nos custos trabalhistas para que as empresas pudessem enfrentar a crise (da redução aos dividendos pagos aos acionistas ele não disse nada, claro). Esse discurso foi seguido de perto pelos de outros empresários, mas recebeu severas críticas por parte de sindicatos, parlamentares e até do presidente Lula. O que mostra que qualquer tentativa de mexer com direitos adquiridos – que não transformam a vida do trabalhador em paraíso, mas garantem um mínimo de dignidade – será duramente rechaçado nas ruas.
Isso, é claro, não impediu que o nhe-nhe-nhém golpista continuasse sendo trazido à baila. O próprio presidente da Confederação Nacional da Indústria, deputado federal Armando Monteiro Neto (PTB-PE), vem defendendo a flexibilização como fundamental para a preservação da economia. Ironicamente, o irmão de Monteiro é proprietário de usina que já foi flagrada repetidas vezes com mão-de-obra análoga à de escrava no Mato Grosso. E que, devido à pressão social e aos problemas trazidos à imagem dessa empresa, acabou fazendo o caminho inverso do que defende Monteiro, no sentido de adequar-se à legislação trabalhista.
Hoje, no jornal Folha de S. Paulo, um artigo de Guilherme Afif, secretário do Emprego e Relações do Trabalho do Estado de São Paulo, e do professor da Hélio Zylberstajn, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, defendem a suspensão do contrato de trabalho para enfrentar os momentos difíceis da economia. Durante esse período, grosso modo, o governo federal pagaria parte do salário, via seguro-desemprego, e a empresa seria desonerada enquanto aguarda tempos melhores. Segundo eles, porque “diante da possibilidade concreta de demissões, os trabalhadores prefeririam manter seus empregos com as empresas em que trabalham”.
Isso na minha terra se chama chantagem: ou é isso ou a rua. E uma terceira opção? Eles dizem que o Fundo de Amparo ao Trabalhador, público, de todos nós, tem recursos para tanto, e as grandes empresas? Também não têm? Se fossem pequenas empresas, que lutam mesmo para sobreviver, entenderia melhor. Mas com as grandes, isso soa ridículo. E, acredite, não é a padaria do seu Manoel que está pressionando por esse instrumento entrar em vigor.
Em outras palavras, quando estivermos em tempos de grandes lucros, os trabalhadores voltam ao serviço, quando as dificuldades chegam, são mandados para casa e toda a sociedade paga parte do custo da operação. Novamente, privatizam-se os lucros e socializam-se as perdas. Nem uma palavra é dita com relação a usar o caixa dos dividendos obtidos em anos de pujança nesse momento. Ou grandes acionistas injetarem mais dinheiro, comprarem mais ações. Se é que esse dinheiro ganho pelos donos da banca ainda está no Brasil…
Os defensores dessa proposta dizem que na Europa desenvolvida, ela é costumeira. Desconsideram que por lá os sistemas públicos de saúde, educação, transporte, lazer e cultura, por exemplo, funcionam, ao contrário daqui. Ou seja, entrar em stand by, não significa ter de tirar o filho da escola ou parar de pagar o plano de saúde. E que a rede de proteção ao cidadão é bem forte do que no Brasil, em muito por conta do Estado brasileiro ter ao longo de sua história servido aos interesses do capital, agido para aumentar lucros e viabilizar o enriquecimento de alguns, em detrimento da grande maioria que ficou de fora (e foi alvo) do butim. (Há também o fato de que muitos países europeus sustentam seu sistema de proteção social nos impostos cobrados sobre as escorchantes remessas de lucros advindas de empresas em países da periferia mundial, como aqui. Ou seja, a gente, em grande parte, ajuda a sustentar o Estado de bem-estar social europeu. Mas isso é história para outro post.)
Acredito na eficiência de negociações de sindicatos fortes com empresas no sentido de buscar as melhores alternativas às demissões, mas o governo e a sociedade devem zelar para que tudo fique dentro de um patamar mínimo de respeito social. Há propostas na mesa, como a redução de salários mediante proporcional redução de jornada (os defensores da precarização do trabalho querem apenas a primeira parte), entre outras. Além disso, é hora de aumentar políticas anticíclicas para a crise, como estímulos ao comércio interno. E isso não se faz reduzindo direitos, mas, pelo contrário, aumentando a capacidade de compra de consumidores.
Mas, sobretudo, é hora de quem ganhou mais nos últimos anos sacrifique-se mais do que quem trabalhou para isso acontecer.
Posto uma humilde sugestão de pauta para algum jornalista ou cidadão curioso.
Antes de mais nada, vale dizer que para essa pergunta não há respostas consensuais. Desde o século 19, buscam-se parâmetros para explicar o que faz do sujeito que nasce nessa porção intertropical de terra único e o que mantém mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados sob os cuidados de um mesmo grupo. A língua portuguesa e a religião católica não são causas, mas sim conseqüências, símbolos do que nós somos. O jeitinho brasileiro, vertente simpática da corrupção e do apadrinhamento, as relações no trabalho, a paixão pelo futebol, o tipo de comida que ingerimos são todas elas conseqüências de uma formação histórica que, se não resume, ajuda a nos explicar. A “brasilidade”, na verdade, é a nossa maneira particular de construir e perceber a realidade.
Texto principal Tamanho: 15 mil.
Fotos para retratar as comunidades
Ilustrações para tratar do tema histórico
O melhor fio condutor para esse é mostrar como, ao longo do tempo, foi a saga pela busca de uma identidade do país. Como jovem nação, poucos anos de independência e menos ainda de liberdades individuais, sempre houve ânsia no sentido de buscar quem somos para assim tentar descobrir para aonde vamos. Muitas produções que surgiram desse esforço são hoje engraçadas do ponto de vista contemporâneo, mas eram levadas a sério antigamente. Hoje, não há uma teoria explicativa da identidade nacional largamente aceita, mas considera-se que houve uma evolução na maneira como se considera o “ser brasileiro”.
Porém, acho um porre para o leitor um texto guiado apenas por isso. A idéia é que essa busca pela identidade seja entrelaçada com histórias de gentes e comunidades de diferentes pontos do país para que o mundo não fique só na teoria, que nunca explica tudo. A história da busca pela identidade brasileira seria feita em um paralelo com a história da busca pela afirmação e reconhecimento da identidade dessas pessoas e comunidades. No país, temos milhões de pessoas que simplesmente não existem diante da opinião pública e governo. Não estou falando de pobreza, mas do processo de afirmação enquanto pessoa, grupo, cidadão. Os pontos de junção entre as duas “sagas” seriam exatamente as características que faz essas pessoas comungarem com a identidade do restante do país. Repito: a idéia não é de falar de mazelas sociais, mas mostrar como essas buscas pela identidade se completam.
Tenho sugestões:
• Imigrantes bolivianos ilegais do Pari e Bom Retiro, região central de São Paulo (SP)
• Guaranis da terra indígena de São Miguel das Missões (RS)
• Comunidades ribeirinhas na Terra do Meio (PA)
• Trabalhadores nordestinos e gaúchos na fronteira agrícola do Mato Grosso (MT)
Um importante fator que forçou a união nacional e tentou forjar uma identidade foi o próprio Estado (leia-se como “Estado”, os detentores do Estado, ou seja, as elites econômicas, burocráticas, políticas e midiáticas), consolidando assim sua própria integridade e poder após a proclamação da República e o “fim” da escravidão. A reportagem também mostraria isso: como a elite tentou moldar uma identidade, lançando para frente os problemas sociais através do discurso do “país do futuro”. E quais foram os instrumentos utilizados para isso, das rádio-novelas às telenovelas, do futebol à Fórmula 1.
Desde o final do século 19, durante o romantismo, pensadores, poetas, políticos, intelectuais, músicos, tentam definir o quais os valores – se é que existem mesmo – que estão por trás do brasileiro e o que une o país como povo. Pulando algumas décadas (afinal de contas, isso é uma pauta) temos grandes ensaios – Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre), Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda) e a Formação do Brasil Contemporâneo (Caio Prado Júnior). Não são unanimidades, muito pelo contrário. Porém, as análises deles servirão para apresentar dois elementos importantes:
A herança portuguesa do patriarcalismo e o do patrimonialismo, que dão subsídios para entender como funcionam as relações sociais e políticas do país hoje. O conchavo, o apadrinhamento, o jeitinho brasileiro, o “sou amigo de fulano”, a fusão do público e do privado, entre outras coisas. E a herança da economia. O Brasil não foi concebido como uma colônia de povoamento, mas sim de exploração. Por causa disso, nossos ciclos históricos são delimitados pelo o que podíamos oferecer para o exterior (madeira, ouro, cana, café…) Mostrar como o latifúndio-monocultura exportadora-escravidão moldou as relações de trabalho e de produção, a visão e o comportamento da elite e das classes populares.
Isso tudo não teria a pretensão de explicar, mas de fomentar mais perguntas ainda. Ou seja, seria um bom texto de reflexão. O que precisamos cada vez mais nesses dias em que chamam indígenas de intrusos e imigrantes de vagabundos.
Na semana passada, oito ministros do Supremo Tribunal Federal votaram a favor da demarcação contínua da terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Marco Aurélio Mello levou a bola para casa quando o jogo quando já estava 8 a 0, sem chances de virada. Só quer brincar de novo em 2009. Gilmar Mendes, o presidente, não quis declarar vencedor, negando a cassação da liminar para a retirada dos arrozeiros da área. Creio que não gostou do resultado, pois deu declarações estranhas à imprensa. Os “poréns” levantados pelo ministro Carlos Alberto Direito, que colocam entraves para o aumento de terras indígenas já demarcadas, são compicadores para efetivação de direitos de povos, como os do Mato Grosso do Sul, encurralados em bolsões de miséria por cidades e grandes fazendeiros. Mas um importante recado foi dado. Para desespero de muita gente que gostaria de ver o país pasteurizado.
Fiz essa introdução para trazer um vídeo a vocês. A animação “Reserva Raposa Serra do Sol” foi lançada na semana passada para explicar à sociedade de forma simples e direta esse caso que gerou tanta polêmica. Dirigido por Arnaldo Galvão, tem entre os responsáveis pelo argumento e roteiro Spensy Pimentel, jornalista e antropólogo, parceiro nosso aqui da Repórter Brasil.
Ficha técnica
Reserva Raposa Serra do Sol, 3 minutos, 2008 Argumento e Roteiro: Ana Vitória, Leandro Saraiva, Newton Cannito, Spensy Pimentel e FICs (Fabrica de Ideias Cinematicas); Direção /Animação/ Storyboard: Arnaldo Galvão; Produção: Marta Machado e Ale McHaddo; Criação de Personagens /Direção de arte /Storyboard: Adriana Meirelles; Trilha: Ben Charles Filgueiras; Assistente de Produção: Ligia Slywitch; Coordenação de Animação: Paulo Biagioni; Composição Digital: Ana Predolin; Rodrigo Lima; Stephanie Watanabe; Edição: Robson Lima.
Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Professor de Jornalismo na PUC-SP, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.