Jardim Pantanal: do caldo de esgoto ao spray de pimenta

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A Prefeitura de São Paulo avisa que não pagará pela desapropriação de imóveis em áreas ocupadas ilegalmente no Jardim Pantanal – aquele bairro que submergiu em um caldo de cocô por conta da incompetência do poder público diante das chuvas que assolam a cidade. O problema é que o lugar é praticamente uma ocupação ilegal, um depositório de gente que foi parar onde São Paulo acaba mais por falta de opções do que por escolha individual. Isso significa que a imensa maioria da população, que construiu sua casinha ao longo de anos de economia suada, ou aceita o auxílio-moradia (um vale-coxinha de R$ 2 mil) ou vai embora de mãos abanando, porque a área será derrubada.

Enquanto isso, centenas de milhões de reais fluem anualmente de bancos públicos para financiar a produção agrícola em grandes propriedades rurais comprovadamente griladas. Ou seja, que ocupam ilegalmente terras públicas. São ínfimos os esforços do governo federal ou de administrações estaduais para reaver essas terras. O que importa é que elas produzem carne, etanol, suco de laranja, geram receitam, geram divisas… Diferente daquela gentinha do Jardim Pantanal que não faz o Brasil crescer, apenas limpa casas, constrói prédios, garante a segurança das ruas. Por isso, para entenderem seu lugar na sociedade, a Polícia Militar fez o óbvio: usou contra eles spray de pimenta enquanto protestavam ontem em frente à prefeitura. Dois pesos, duas medidas, não. Apenas uma questão de quem tem e quem não tem.

Com exceção dos fanáticos religiosos que enxergam sinais da primeira ou segunda vinda do messias (dependendo da religião em questão), apenas os mais míopes não percebem que a cidade está dando o troco. Não estou falando apenas do aquecimento global e das já irreversíveis mudanças climáticas que vão gratinar a Terra nos próximos séculos, mas também dos crimes ambientais que fomos acumulando debaixo do tapete e que, agora, tornaram-se uma montanha pronta a nos soterrar. Ou um caldo de esgoto a nos tragar.

O fato é que ocupação irregular, planejamento, plano diretor, reforma urbana são expressões ouvidas apenas no tempo das chuvas. Na seca, elas evaporam do léxico não só dos mandatários, mas também de pobres e ricos, que continuam construindo, desmatando e poluindo. Suas razões são diferentes, mas o efeito é o mesmo. Vale lembrar que tudo isso dito aí em cima não gera um voto, pelo contrário: quem é o doador que vai ficar feliz por ter o lançamento de seu edifício de escritórios na Marginal Pinheiros embargado por não ter mitigado os impactos que ele causará na cidade? Ou qual o apresentador de TV, que teve sua pousada de luxo removida de um paraíso ecológico por estar em local impróprio, toparia fazer campanha de graça para o político que atuou firmemente para a referida pousada ir ao beleléu?

Qualquer solução eficaz adotada vai passar por mudanças no comportamento de todos nós. Como diria Cecília Meireles no Romanceiro da Inconfidência, “todos querem a liberdade, mas quem por ela trabalha?” No Brasil, muito poucos. Certamente, os moradores do Jardim Pantanal que levaram pimenta nos olhos, ontem, ao protestar por dignidade, estão entre eles. Não estão se contentando com o lugar previamente reservado para eles na sociedade, de gado. Para uns isso é subversão e baderna. Para outros, democracia e cidadania.

A maioria segue escondida no conforto do anonimato, defendendo o seu, fazendo meia dúzia de ações insignificantes para dormir sem o peso da consciência e o resto da cidade que se dane. Não querem mudanças no modelo de desenvolvimento que impactaria o “American Way of Life” que importamos, apenas reciclar latinhas de alumínio, não jogar papel na rua e dar três descargas a menos no vaso sanitário por dia. E seguem respondendo de boca cheia que fariam de tudo para construir um mundo melhor. E não conseguem, nem ao menos, votar direito.


  1. Social comments and analytics for this post…

    This post was mentioned on Twitter by blogdosakamoto: Jardim Pantanal – do caldo de esgoto ao spray de pimenta: http://is.gd/80hnw...

  2. Rubens Macedo disse:

    Excelente texto, Sakamoto!

  3. Boa analogia entre os ocupantes do Jardim Pantanal e os grileiros. Estes, não só recebem incentivos como são premiados. Basta vê a onda de “legalização” de grilagem promovida pelo governo federal via programa “Terra Legal” e dos governos estaduais do Pará e Mato Grosso que caminham a passos largos para redução da reserva legal das propriedades e grilos. Aos primeiros, no máximo uma bolsa-enchente temperada com spray de pimenta demo-tucana.

  4. Cris Couto disse:

    “Não querem mudanças no modelo de desenvolvimento que impactaria o “American Way of Life” que importamos, apenas reciclar latinhas de alumínio, não jogar papel na rua e dar três descargas a menos no vaso sanitário por dia. E seguem respondendo de boca cheia que fariam de tudo para construir um mundo melhor.”

    Não poderia ter dito melhor!

  5. Célio disse:

    Mandou bem , Sakamoto. Vc disse com propriedade o que deveria ser óbvio mas…. basta lembrar que a prefeitura de São Paulo desativou albergues no centro com a intenção de mandar os usuários p/ as regiões perifericas da cidade, ou seja, os jardins pantanais da vida.Depois é fácil, basta esquecer completamente a população ou baixar o “spray de pimenta’ em quem atreve-se a reclamar algo.
    Um forte abraço, valeu

  6. Eu estava lá e estou com queimaduras do spray… Serra e Kassab são bárbaros no comando de criminosos fardados.

    http://tsavkko.blogspot.com/2010/02/este-e-o-governo-de-serra-e-de-seu.html

  7. Ciro Lauschner disse:

    Todo e qualquer ato de desapropriação exige que o desapropriado seja indenizado e embora não haja usucapião em terras públicas há o direito de posse, desde que de forma mansa e pacífica, sem invasão forçada.
    Embora um drama terrível para as pessoas não notei na reportagem nem nos comentários vontade de solucionar o problema, mas apenas uma questão política partidária com o fim de atacar Kassab-Serra.
    É bom que se diga que Luiza Erundina foi eleita pelo PT assim como Martha Suplicy além de Lula com mais de 7 longos anos no poder. Lula tão ávido em ajudar os haitianos não mostra a mesma vontade com seus conterrâneos empurrando o problema para o prefeito.
    É bom que se diga que hoje o dinheiro ou maior parte dele está na mão do governo Federal e não nos estados e municípios.
    Analogia com grilagem de terras não cabe, porque terra pública é ocupada quando sem destinação específica (parques, reservas indigenas, biológicas etc) e cabe ao Governo documentá-las dentro de tamanhos previstos em lei.

  8. Ulisses Adirt disse:

    Se quiser dar uma olhada em outro texto com ideias parecidas, dê uma lida nesse fabuloso trabalho do Alex Castro: http://www.interney.net/blogs/lll/2010/01/18/gelosias_e_grades_espaco_publico_e_priva/

  9. Carlos disse:

    São Paulo já tem gente demais e carro demais para espaço de menos. Não adianta querer empilhar milhões de pessoas num espaço ínfimo, daí dá nisso. Além disso, o povo do Jardim Pantanal provavelmente é o primeiro que vota em qualquer político em troca de uma cesta básica, de ligação de água e luz, mesmo quando todos sabem que isso vai dar problema mais adiante. Depois não adianta reclamar.

    Carlos Goulart
    http://matasnativas.wordpress.com/

  10. Gerson disse:

    Moro no jardim pantanal, fico de certa forma ofendido com os cometarios, lembro que 70 % dos moradores do jardim pantanal são pessoas trabalhadoras e dignas de respeitos sei que moramos alí por falta de opções, porem não admito sermos usados por partidos politicos em época de eleições.

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