Arquivo agosto, 2010

Você sabe como seu candidato vota no Congresso? – parte 2

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Este texto faz parte de uma série de posts sobre votações de projetos importantes aos trabalhadores e ao meio ambiente no Congresso Nacional.

Por 13 votos a 5, uma comissão especial criada na Câmara dos Deputados para discutir a reformulação do Código Florestal aprovou o texto do relator Aldo Rebelo. A matéria ainda têm que passar pelos plenários do Congresso Nacional e ser sancionado pela Presidência da República para valer na prática, mas já causou polêmica entre produtores rurais e militantes sociais e ambientais.

O novo texto anistia quem cometeu infrações ambientais, isenta propriedades de até quatro módulos fiscais (cerca de 400 hectares na Amazônia) de refazerem as reservas desmatadas e reduz a faixa mínima de mata ciliar que deve ser preservada à beira de cursos d’água, entre outros pontos. Também proíbe novos desmatamentos por um prazo de cinco anos, algo de difícil cumprimento uma vez que a política do fato consumado já mostrou que funciona.

Vale a pena, portanto, como um serviço de utilidade pública eleitoral, listar quem votou a favor e contra essa mudança no Código Florestal na comissão especial. Com a ajuda do jornalista Rodrigo Rocha, checamos no Tribunal Superior Eleitoral quem deles é candidato nestas eleições. Não é uma sugestão de voto a favor ou contra, mas uma possibilidade do eleitor checar a opinião de seu futuro representante sobre o tema.

Votaram a favor da proposta de mudança no Código Florestal
Aldo Rebelo (PCdoB-SP) – Candidato a deputado federal
Anselmo de Jesus (PT-RO) – Candidato a deputado federal
Cezar Silvestri (PPS-PR) – Candidato a deputado federal
Duarte Nogueira (PSDB-SP) – Candidato a deputado federal
Ernandes Amorim (PTB-RO) – Candidato a deputado estadual (candidatura indeferida, mas em recurso)
Homero Pereira (PR-MT) – Candidato a deputado federal
Luis Carlos Heinze (PP-RS) – Candidato a deputado federal
Marcos Montes (DEM-MG) – Candidato a deputado federal
Moacir Micheletto (PMDB-PR) – Candidato a deputado federal
Moreira Mendes (PPS-RO) – Candidato a deputado federal
Paulo Piau (PMDB-MG) – Candidato a deputado federal
Reinhold Stephanes (PMDB-PR) – Candidato a deputado federal
Valdir Colatto (PMDB-SC) – Candidato a deputado federal

Votaram contra a proposta de mudança no Código Florestal
Dr. Rosinha (PT-PR) – Candidato a deputado federal
Ivan Valente (Psol-SP) – Candidato a deputado federal
Ricardo Tripoli (PSDB-SP) – Candidato a deputado federal
Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) – Candidato a senador
Sarney Filho (PV-SP) – Candidato a deputado federal


O Brasil mais gordo é um país mais feliz?

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A Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE apontou que 50,1% dos homens e 48% das mulheres estão com excesso de peso (na década de 70, o índice era de 18,5% e 28,7%, respectivamente). Enquanto isso, 12,5% dos homens e 16,9% das mulheres são obesos. Estamos comendo mais industrializados (bolachas, comida pronta, refrigerantes) no lugar de alimentos tradicionais (arroz, feijão, vegetais). Isso, aliado ao excesso de sedentarismo, é uma bomba relógio.

Estamos nos tornando cada vez mais, para a alegria de muitos, uma sociedade parecida com a norte-americana quanto aos hábitos de alimentação – lá os índices de obesidade entre a população adulta são alarmantes. É o nosso mundo novo, admirável, gordo, que vem semi-pronto para comer.

É claro que isso causa efeito colaterais além dos pneus de gordura e das veias entupidas de colesterol. Apesar das propagandas pregarem o contrário (e viva a liberdade de expressão sem responsabilidade…), não há recursos naturais suficientes para a universalização do estilo de vida norte-americano, já adotado de forma cega por nós e pelas classes abastadas das demais metrópoles mundiais e que vai ganhando membros com o crescimento econômico. Se consumindo o que a gente já consome, o planeta está desse jeito, imaginem se todos os habitantes da Terra tivessem um padrão de consumo desnecessariamente alto, próximo daquele dos Estados Unidos pré-crise? O colapso ambiental e social viria muito antes do que imaginamos.

Como já disse aqui, não estou defendendo que nos organizemos em comunidades isoladas, cultivemos juta para fiar nossas roupas, boldo e pariparoba para garantir uma reserva médica e restrinjamos nosso lazer a cânticos cumbaiá em torno de fogueiras. Avançamos tecnologicamente e nos beneficiamos disso – por mais que esse “progresso” seja doloroso. E é exatamente por isso, pelo acúmulo de conhecimento sobre o meio em que vivemos, que é possível e lógico reformular nosso padrão de vida. Consumir o que é necessário, repensando o significado de “necessário” – o que inclui a necessidade de processamento do alimento, que gasta energia, produtos químicos, embalagens, enfim. Afinal de contas, o debate sobre o meio ambiente emerge no século 21 como uma discussão sobre a qualidade de vida, não tratando apenas de rios poluídos e derramamento de petróleo, mas também da atual idéia de progresso – alta tecnologia aliada a uma postura consumista -, que não está conseguindo dar respostas satisfatórias à sociedade.

Nossa qualidade de vida aumentou ao termos menos tempo para fazer nossas refeições e, consequentemente, optarmos pelo caminho fácil de nos entupir de produtos menos saudáveis, mas mais rápidos? Ou, por outro lado: a entrada de classes mais pobres no consumo através de uma avalanche de carboidratos industrializados vendidos como status social na TV deve ser comemorada?

Postei aqui tempos atrás um trabalho do fotógrafo Peter Menzel e do jornalista Faith D’Alusio sobre as diferenças de dietas em diferentes lugares do mundo. Em Hungry Planet: What the World Eats (Planeta Faminto: O que o Mundo Come, Editora Ten Speed Press) mostram como se alimentam 30 famílias em 24 diferentes países. Da fome à obesidade, as fotos são um bom ponto de partida para a discussão sobre desigualdade social. No que pese os enormes avanços no combate à fome que ocorreram nos últimos anos, se a comparação fosse feita dentro das fronteiras do Brasil, a disparidade ainda seria grande, pois teimamos em encontrar quem não come como deveria por aqui. É claro, o que significa um gosto amargo a mais por estamos na mesma sociedade.

(Lembrando que US$ 1 = R$ 1,75.)

Alemanha: Família Melander
Gasto semanal com alimentação: US$ 500,07

Estados Unidos: Família Revis
Gasto semanal com alimentação: US$ 341,98

Itália: Família Manzo
Gasto semanal com alimentação: US$ 260,11

México: Família Casales
Gasto semanal com alimentação: US$ 189,09

Polônia: Família Sobczynscy
Gasto semanal com alimentação: US$ 151,27

Egito: Família Ahmed
Gasto semanal com alimentação: US$ 68,53

Equador: Família Ayme
Gasto semanal com alimentação: US$ 31,55

Butão: Família Namgay
Gasto semanal com alimentação: US$ 5,03

Chade: Família Aboubakar
Gasto semanal com alimentação: US$ 1,23


Para a Economist, o Cerrado é um vazio a ocupar

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O Cerrado é um dos biomas mais desmatados e desprotegidos. Parte do milagre agropecuário ocorrido por lá também se deu com a pilhagem da terra, o desmatamento ilegal, a superexploração do trabalho, a expulsão de comunidades tradicionais e a contaminação de rios e lençóis freáticos. É no mínimo irônico que a Economist, a revista de maior prestígio no mundo econômico, “ignore” isso em sua reportagem de capa desta semana.

Publico, abaixo, texto do coordenador do Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis da Repórter Brasil, Marcel Gomes, sobre o tema:

A nova edição da prestigiosa revista inglesa The Economist leva mais uma vez o Brasil à capa, agora com reportagem e editorial sobre a agricultura nacional. Em ritmo de samba-enredo, os artigos cantam em prosa e verso o sucesso do campo brasileiro, que em trinta anos transformou o país de importador a exportador de alimentos. A reportagem, intitulada “O milagre do cerrado”, narra a partir de fazendas no Piauí e na Bahia como regiões pobres do país passaram a produzir toneladas de soja e algodão através do emprego de alta tecnologia.

“Entre 1996 e 2006, o valor total da produção agrícola do país aumentou de 23 bilhões de reais para 108 bilhões de reais, ou 365%. O Brasil aumentou suas exportações de carne dez vezes em uma década, ultrapassando a Austrália como maior exportador do mundo. Tem o maior rebanho bovino do mundo depois da Índia. É também o maior exportador mundial de frango, açúcar de cana e etanol. Desde 1990 sua produção de soja aumentou de quase 15 milhões de toneladas para mais de 60 milhões”, diz o texto, para em seguida perguntar:

“Como o Brasil conseguiu essa transformação surpreendente?”. Para a revista, a resposta a essa questão é importante porque pode ajudar nações mais pobres, sobretudo as da África, a repetirem o desenvolvimento agrícola brasileiro. Segundo os editores, o segredo do milagre agrícola nacional passa por características naturais – terra arável e água em abundância – e pelo desenvolvimento de uma tecnologia agrícola própria. Sobre esse último aspecto, houve contribuição fundamental da Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, cujos estudos geraram técnicas para tornar mais fértil o solo do cerrado e adaptar culturas temperadas, como a soja, a zonas tropicais.

Como se pode facilmente notar, The Economist escolheu contar só um lado da história. Nenhuma palavra sobre a destruição ambiental do cerrado, a exploração dos trabalhadores e as ameaças que o agronegócio tem levado a populações tradicionais e indígenas. Também não há nada sobre a concentração fundiária e de renda que marcou a modernização agrícola do campo brasileiro desde a década de setenta e a fase de liberalização comercial, nos noventa.

Se a revista inglesa tivesse interesse em mostrar dados, eles estão disponíveis. No ano passado, o Ministério do Meio Ambiente divulgou um estudo revelando que 47,8% por cento de área original do cerrado já havia sido desmatada até 2008. O Cerrado ocupa um quarto do território nacional, possui 5% de toda a biodiversidade do planeta e é responsável por 70% da vazão das bacias do Paraná-Paraguai, Araguaia-Tocantins e São Francisco. A devastação não deve parar por aí. O professor Manuel Eduardo Ferreira, do Laboratório de Processamento de Imagem e Geoprocessamento (Lapig) da Universidade Federal de Goiás, estima em pesquisa publicada em 2009 que, caso o ritmo de devastação do cerrado pelo agronegócio se mantenha, quatro milhões de hectares das chamadas “savanas brasileiras” irão ao chão por década.

Para além da questão ambiental, o tema trabalhista também guarda informações importantes sobre os problemas da expansão agrícola. Entre 2003 e 2009, o Oeste baiano, principal área de avanço do agronegócio no estado, apresentou 43 casos de propriedades flagradas com trabalhadores em situação análoga à escravidão. Os flagrantes se relacionam a casos verificados no algodão, pecuária, carvoaria, soja e milho, entre outras atividades. O problema, é claro, não se restringe à Bahia. Entre 2003 e julho de 2010, 33.598 trabalhadores brasileiros foram resgatados pelos grupos de fiscalização do governo, muitos deles de fazendas altamente tecnológicas como as descritas pela The Economist na reportagem.

Não se trata aqui de puxar a orelha do jornalista inglês. Talvez só mesmo um brasileiro seja capaz de compreender como podem conviver tão facilmente, em relativa harmonia, o antigo e o moderno, a escravidão mais desumana e a tecnologia de ponta. Mas há que se fazer um contraponto. Os dados e as histórias que maculam o “milagre do cerrado” brasileiro estão aí, disponíveis para quem quiser consultar. A não ser que se escolha não consultá-los.


Eleições: Lula, Dietas, Maconha e Jesus

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As altas taxas de popularidades do governo do presidente Lula (79% de acordo com a última pesquisa Datafolha divulgada hoje) estão criando (mais) situações inusitadas do pessoal que quer pegar carona em sua imagem. Os casos de candidatos a postos do poder executivos já são bem conhecidos, mas não tinha me atentado para o mesmo na eleição às Assembléias, Câmara Distrital e Congresso.

Por exemplo: aqueles adesivos de campanha colados na traseira de automóveis. Alguns candidatos de partidos da base governista excluíram suas próprias fotos deixando apenas a imagem do presidente da República. Mais ou menos o que acontece no horário eleitoral gratuito em rádio e televisão, em que o presidente aparece mais do que qualquer outro candidato a deputado estadual.

O pior é que isso tende a funcionar, pois as propagandas dos candidatos que optaram pela tática Photoshop-me-tira-daqui não possuem condições de serem eleitos síndicos de prédios, quanto mais deputados.

Já há muitas discussões de marketing e comportamento político sobre a eficiência da transferência de votos, então não vou chatear vocês com isso. Mas vendo os anúncios colados nos carros, me lembrei de quando trabalhava em redação grande.

Existe um mantra de que, se você quer vender revista, coloque Jesus na capa. Afinal, só Jesus salva. Outros temas sempre perseguidos, pois são campeões de venda: Drogas, Jesus, Dietas e mais Jesus. Lembro de um caso em que uma revista mensal colocou Jesus na capa e vendeu horrores perto do Natal. Um ano depois, o que fazer? Repetir a capa? Ia ser muito feio. A solução foi dar a história de um dos apóstolos de Jesus . Vendeu bem de novo.

De certa forma, nós como jornalistas, sob a justificativa de dar o que o povo quer, já adotamos em nosso dia-a-dia o que o marketing político lasca e abusa. Quem sai perdendo nos dois casos é a sociedade, que acaba tendo reduzida a possibilidade de pluralidade. Algo desejável, seja ela decorrente da publicação de pautas diferentes do que aquilo que “vende” (mesmo sob o risco de sermos acusados de dar o que o povo não quer…), seja derivado de ouvirmos o que pensam de verdade os candidatos. Pois já sei o que pensa o presidente.


Dilma assina compromisso contra o trabalho escravo

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A candidata à Presidência da República Dilma Rousseff assinou a Carta-Compromisso contra o Trabalho Escravo, comprometendo-se a tornar o tema uma das prioridades de seu governo caso seja eleita.

Quem assina a Carta se compromete, entre outros pontos, a apoiar a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional que prevê o confisco de imóveis onde for encontrado trabalho análogo ao de escravo (PEC 438/2001), que tramita no Congresso Nacional, e a renunciar ao eventual mandato caso seja descoberto trabalho escravo em suas propriedades, além de exonerar qualquer pessoa que ocupe cargo público de confiança que se beneficie deste tipo de mão-de-obra. O conteúdo completo do documento e o acompanhamento das adesões estão disponíveis no site www.compromissopelaliberdade.org.br.

Antes de Dilma, Plínio de Arruda Sampaio (PSol) e Ivan Pinheiro (PCB) já haviam assinado a Carta-compromisso, considerando os candidatos ao governo federal. Ao todo, 18 candidatos a governos estaduais já aderiram à Carta, muitos deles líderes nas pesquisas de intenção de voto.

Todos os candidatos à Presidência da República e os principais candidatos aos governos dos 26 Estados e do Distrito Federal foram convidados a assinar a Carta-Compromisso. Antes do primeiro turno das eleições, será realizada uma coletiva de imprensa para divulgar o balanço de quem assinou o documento e quem se recusou a fazê-lo.

Em 1995, o Estado brasileiro reconheceu a existência de escravidão contemporânea em seu território diante das Nações Unidas e criou grupos móveis de fiscalização para resgatar trabalhadores. Desde então, mais de 38 mil foram libertados no país. Apesar dos esforços e avanços empreendidos por órgãos governamentais, entidades da sociedade civil, empresas e movimentos sociais, milhares de brasileiros continuam tolhidos de sua liberdade de ir e vir, despidos de seus direitos ou de sua dignidade.

A Carta-compromisso contra o Trabalho Escravo é uma iniciativa de organizações da Frente Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo (para candidatos a governos estaduais e do Distrito Federal e à Presidência da República) e da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (para candidatos à Presidência da República) e está sendo executada pela ONG Repórter Brasil. A campanha contribui para pautar o tema durante as eleições, além de estabelecer um canal direto de diálogo (e eventual cobrança) entre a sociedade civil e os futuros administradores públicos.

Em 2006, a primeira versão da carta-compromisso foi assinada pelos três principais candidatos à Presidência da República e por candidatos a governos estaduais que foram posteriormente eleitos. Políticas públicas adotadas durante suas gestões tiveram origem na carta, como a aprovação de leis que restringem a compra de mercadorias produzidas com trabalho escravo.


Apenas 50 bolivianos entraram no país no 1o semestre. Será?

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De acordo com dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, 22.188 autorizações de trabalho a estrangeiros foram concedidas no primeiro semestre deste ano – um crescimento de 18,85% em relação ao mesmo período de 2009.

Os profissionais mais beneficiados com autorizações temporárias foram trabalhadores de embarcações ou plataformas estrangeiras, de assistência técnica, de cooperação técnica, de transferência de tecnologia, além de artistas e esportistas. Já a maioria das autorizações permanentes foi concedida para administradores, diretores, gerentes e executivos com poderes de gestão – o pessoal graúdo. Do ponto de vista legal, os recordistas em entradas foram países como Estados Unidos, Reino Unido e Filipinas.

Uma informação salta à vista: a Bolívia aparece apenas na 40ª posição, com 50 trabalhadores. OK, a lista mostra quem veio de forma legalizada. Mas sabemos que centenas de pessoas vindas do país mais pobre da América do Sul entraram ilegalmente para tentar uma vida melhor por aqui – principamente na região metropolitana de São Paulo. Muitos, aliás, acabaram sendo explorados em subempregos – bem, quem lê este blog sabe do que estou falando.

Pessoas invisíveis, que não aparecem nas estatísticas. Mas que teimam em existir.


Acompanhe o debate entre os candidatos a vice-presidente

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Acompanhe, a partir das 10h30, o debate Folha/Uol entre os candidatos a vice-presidente da República. Considerando que, na história recente do Brasil, tivemos dois vices que se tornaram presidentes (José Sarney e Itamar Franco), é bom saber quem são e o que pensa aqueles que podem assumir o mais importante emprego do país caso alguma coisa dê errado…

(Deixei a janela com o vídeo embutido ficou aqui durante o dia. Agora, para acessar o debate, clique aqui.)


Você sabe como seu/sua candidato(a) vota no Congresso?

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Estou inaugurando (para ajudar na discussão eleitoral) uma série de posts sobre votações de projetos importantes aos trabalhadores e ao meio ambiente no Congresso Nacional.

Há pouco mais de seis anos, no dia 11 de agosto de 2004, a Proposta de Emenda Constitucional número 438/2001 foi à votação na Câmara dos Deputados. A PEC prevê o confisco de imóveis em que trabalho análogo ao de escravo for encontrado e os destina à reforma agrária ou a programas de habitação urbana.

Dos 513 deputados, 344 compareceram à sessão. Como se trata de alteração na Constituição, eram necessários 308 votos. O resultado foi 326 a favor, 10 contra e oito abstenções.

A proposta que já foi aprovada pelo Senado Federal aguarda, desde então, votação em segundo turno. Ela é considerada por setores do governo federal e da sociedade civil um instrumento importante na luta contra essa forma de exploração do trabalho.

Vale a pena, portanto, como um serviço de utilidade pública eleitoral, listar quem votou contra e quem se absteve. Com a ajuda do jornalista Rodrigo Rocha, checamos no Tribunal Superior Eleitoral quem deles é candidato nestas eleições. Não é uma sugestão de voto a favor ou contra, mas uma possibilidade do eleitor checar a opinião de seu futuro representante sobre o tema.

Votaram “Não”
Abelardo Lupion (DEM-PR) – Candidato a deputado federal
Alberto Fraga (DEM-DF) – Candidato a Senador (Candidatura aguardando julgamento)
Benedito de Lira (PP-AL) – Candidato a Senador
Bosco Costa (PDT-SE) – Candidato a deputado federal
Dilceu Sperafico (PP-PR) – Candidato a deputado federal
José Carlos Araújo (PDT-BA) – Candidato a deputado federal
Kátia Abreu (DEM-TO) – Senadora
Luis Carlos Heinze (PP-RS) – Candidato a deputado federal
Moacir Micheletto (PMDB-PR) – Candidato a deputado federal
Ronaldo Caiado (DEM-GO) – Candidato a deputado federal

Abstiveram-se
Eduardo Sciarra (DEM-PR) – Candidato a deputado federal
Elimar Máximo Damasceno (Prona- SP)- Não é candidato
Enéas (Prona-SP) – Falecido
Félix Mendonça (DEM-BA) – Não é candidato
Ricardo Barros (PP-PR) – Candidato a Senador
Ronaldo Dimas (PR-TO) – Candidato a deputado federal
Sergio Caiado (PP-GO) – Candidato a deputado federal
Zonta (PP-SC) – Candidato a deputado federal


Direitos trabalhistas são entraves ao bem-estar das pessoas?

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Ouvi uma entrevista com uma especialista em recursos humanos no rádio. Olha, estou acostumado a me deparar com cada coisa, mas dessa vez fiquei atônito. Não com o conteúdo que ela trazia ao público, mas com a sinceridade com a qual tratou alguns temas, defendendo que determinadas regras trabalhistas atrapalham o bem-estar das pessoas. Vamos a alguns deles:

- Extensão da licença maternidade para seis meses. Basicamente, ela taxou isso como um absurdo, uma vez que a mulher, quando volta ao trabalho, está completamente fora do tempo da empresa, que avançou sem ela, e poderia se tornar descartável. Ou seja, a culpa é do maldito ato de amamentar e daquele ingrato bebê que foi nascer logo agora quando havia um lugar ao sol para a mulher! Nada sobre o ambiente de trabalho criado que ignora que (ainda) não somos máquinas, mas sim seres de carne e osso com uma vida do lado de fora.

Primeiro, se a mãe não quer usar esse tempo, ótimo, use o quanto quiser, mas é ela quem deve fazer a escolha e não uma pressão corporativa idiota. Segundo, as empresas deveriam, se necessário, atuar individualmente com as profissionais para a readaptação ao local de trabalho, como em muitos países socialmente desenvolvidos. Terceiro, há países da Europa em que a licença estendida pode ser dada à mãe ou ao pai – sim, em um casal com direitos iguais, tarefas divididas igualmente. Há locais em que ela opta por tirar quatro meses e os outros dois ou oito meses ficam com o pai, se assim decidirem.

- Ponto eletrônico. Segundo a entrevista, voltamos à idade da pedra do trabalho pelo governo federal adotar o ponto eletrônico com impressão de comprovante. De acordo com a especialista, em um momento em que contar horas trabalhadas perde em importância diante dos processos tecnológicos que estão adaptando o serviço à vida do empregado e ao seu bem-estar. Há!

Como já disse aqui, ao longo do tempo, o Ministério do Trabalho e Emprego e o Ministério Público do Trabalho receberam muitas denúncias relacionadas a fraudes nos sistemas de ponto utilizados por grandes empresas como magazines varejistas e redes de supermercados. Denúncias formuladas por trabalhadores e sindicatos, que revelaram fraudes, em especial com a finalidade de reduzir as horas extras computadas. Foram encontrados programas de controle de ponto eletrônico que permitiam que o empregador, por meio de senhas, tivesse acesso posterior às marcações dos empregados e pudesse – inclusive – alterar horários de entrada e de saída, além dos intervalos para repouso e alimentação. Ou seja, depois que você bateu o cartão, alguém vai lá e diminui o seu tempo de trabalho. Uma rede de supermercados confessou a um juiz no Rio Grande do Norte que alterava “para o bem” as marcações. Faz-me-rir. Reclama-se que isso vai consumir mais papel. Se isso garantir que o trabalhador não seja tungado, ótimo, vale a pena.

Eu sou um escravo do meu smartphone, por isso sei muito bem os males que ele faz à minha saúde física e social da mesma forma que reconheço as coisas boas. A Folha de S. Paulo trouxe uma matéria neste domingo (22) – “Tecnologia prolonga jornada de trabalho” – que trata exatamente como o uso desses aparelhinhos, além dos computadores portáteis, pode aumentar o tempo trabalhado – muitas vezes não remunerando-o. Há quem defenda isso, dizendo que a desterritorialização do local de trabalho pode aumentar o bem-estar do trabalhador. O problema é que nem sempre o trabalho é um prazer e você acaba carregando um fardo para onde quer que vá, à disposição, produzindo valor que não será, necessariamente, compartilhado com você. Como disse o professor Ricardo Antunes, da Unicamp, na mesma matéria: “Aumentam os adoecimentos e o estresse. A aparência da liberdade do trabalho em casa é contraditada por um trabalho que se esparrama por todas as horas do dia e da noite”.

Na entrevista que ouvi hoje, a especialista não quis se aprofundar na questão da redução da jornada de trabalho. Disse que não faz sentido, hoje, a discussão de horas, mais ou menos pela mesma crítica que fez ao ponto eletrônico. Não? Conforme a Organização Internacional do Trabalho divulgou a redução do teto da jornada para 40 horas semanais, como defendem as centrais sindicais, beneficiaria um contingente de 18,7 milhões de trabalhadores brasileiros, que teriam mais horas para ficar só com a familia, fazer um curso, ter lazer, beber cerveja na frente da TV, qualquer coisa menos pensar em trabalho. Porque pensar em trabalho pode cansar tanto quanto trabalhar.

Um dado interessante: de acordo com a OIT, a média de horas trabalhadas por semana pelos homens era de 44 horas, quase oito a mais do que a jornada das mulheres, de 36,4 horas. Mas no conjunto das mulheres brasileiras ocupadas, uma expressiva proporção de 87,8% também realizava afazeres domésticos, enquanto que entre os homens tal proporção expressivamente inferior (46,5%). A média de horas dedicadas aos afazeres domésticos foi de 18,3 pelas mulheres e de 4,3 pelos homens ocupados, ou seja, 14 horas a menos. Somando, as horas trabalhadas fora e em casa, as mulheres são mais exigidas. Afazeres domésticos, como cuidar dos filhos, muitas vezes sem a mínima ajuda do marido.

Apesar de vir da boca de uma especialista em RH, essas posições certamente encontram eco entre direções e gerências de empresas. Seria interessante que cada vez mais esses temas ganhassem o debate público e que trabalhadores e patrões pudessem expor seus pontos de vista. Melhor ainda se os candidatos nestas eleições gerais colocassem para fora o que pensam dos temas.

Mas, como já disse, nenhum postulante está sendo verdadeiramente pressionado a se posicionar a respeito de qualquer projeto concreto de interesse dos assalariados ou dos mais pobres em entrevistas, debates, artigos ou editoriais. Assuntos como redução da jornada de trabalho, aumento da licença maternidade, taxação de grandes fortunas, correção dos índices de produtividade da terra, defesa do Código Florestal, entre outros, são tratados como polêmica ou tabus pelas campanhas. Assim fica difícil.


Parabéns, paulistanos! Hoje o ar de SP está irrespirável

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Para quem está (por sorte) fora daqui: mentalize um ar muito seco, atacamesco mesmo, somado à poluição gerada por milhões de felizes condutores de automóveis, motocicletas e caminhões que crescem a cada dia a taxas chinesas. Sentiu? Desistiu de vir para cá passar férias? O pior é que quem conta o número de anos perdidos pelos citadinos paulistanos por respirar meleca são considerados entraves ao desenvolvimento. É mais patriótico comemorar os recordes de fabricação de veículos.

Ah, e o dinheiro público que despejamos na indústria automobilistica não nos ajudou a sair da crise econômica? É verdade. Mas a confirmação disso é exatamente a certeza de que sempre optamos pela saída mais fácil, sem pensar nas consequências. Pois, como boa parte do capital não aceita condicionantes, contrapartidas ambientais decentes pelo dinheiro investido só quando um fusca falar.

E se os recursos fossem investidos no transporte público, favorecendo a coletividade e não o individualismo?

Respire fundo… Vocês e seus filhos vão viver menos, mas felizes, porque estarão motorizados.

Ao mesmo tempo, parte do Mato Grosso está coberta por uma nuvem de pó e fuligem. Muita gente aproveita a falta de chuva e desce o fogo na mata. Depois bota a culpa em São Pedro ou em “incêndios criminosos”. Ah, sim… Que criminoso bonzinho é esse que limpa a área de um fazendeiro de graça, preparando-a para o plantio?

Saiba que alguns carros que usamos já foi minério de ferro no subsolo do Pará ou de Minas Gerais e árvore da Amazônia, do Cerrado ou do Pantanal – que virou carvão e caiu em um forno de siderúrgica. Carvão que arde, muitas vezes de forma ilegal, dia e noite, contaminando o meio e superexplorando trabalhadores. Com tanto jeitinho, o produto vai ficando mais competitivo e todo mundo sai lucrando. Menos o peão.

Que, no final, fica com uma terra nua e um ar amarelo-acinzentado, enquanto a gente dá tchauzinho de dentro do carro.